Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

O Parque do Queimado, o NEOJIBA e a arte da Liberdade

Há 15 dias, fui convidado por Ricardo Castro a conhecer o Parque do Queimado, futuras instalações do NEOJIBA.

Hoje, uma nova leva de convidados foi ao local, e me dei conta de que sequer registrei aqui minhas impressões.

Não que elas importem, mas a obra, sim, e muito. A alta sofisticação da obra, notadamente no que tange à acústica, salta aos olhos. Basta dizer que, depois de pronta, será provavelmente a obra mais avançada em termos acústicos do país.

Um sala de concerto para cento e poucas pessoas com estrutura de acústica que permite um isolamento incrível para quem estiver no espaço, com dutos de ar em velocidade específica, passando pelo solo, para sequer ouvirmos um sussurro de vento durante as apresentações. Madeiras vindas do Canadá, cortinas vindas da Bélgica, e tudo sendo feito de acordo com a responsável pela obra, a Nagata Acoustics; exigência para assinar o projeto.

As salas de ensaio terão revestimento, portas e climatização com a mesma tecnologia da sala de concerto, e restauração do patrimônio histórico belíssimo, do local. Há planos futuros de ampliação que são ainda mais incríveis. Tudo isso no Bairro da Liberdade.

É uma pequena revolução. Em plena Liberdade, o espaço, em diversos aspectos, mais sofisticado para música de concerto no país. Atendendo à formação de músicos, com todo cuidado à técnica, à dedicação, ao desempenho e responsabilidade. Abrindo possibilidades a essa juventude de circular pelo mundo com os maiores regentes e concertistas, tocando o melhor repertório mundial.

Não é um puxadinho num bairro popular para ensinar a molecada a tocar “parabéns pra você” nas horas vagas e ser aplaudido por seus desafinos e falta de técnica. É arte sendo levada a sério.

Escrevo isso um dia depois de ter sido jurado de estudantes de uma escola pública no subúrbio, que vão se apresentar num festival. Era canto, dança, e pude ver apenas uma apresentação teatral.

Muita gente talentosa, e um dado interessante. Muitas vezes, a mesma pessoa que se apresentava cantando, também fazia uma apresentação de dança. E outro dado mais interessante ainda: as canções eram geralmente evangélicas, e as danças eram geralmente funk e pagode. Vi meninas e meninos louvando a Deus no canto, e requebrando endiabradas e endiabrados na dança.

Tudo por uma simples questão de referência. O canto que lhes chega, é o da igreja (na esquina da rua, há uma IURD). A dança que lhes chega, é a que veem pela TV. E eles naturalmente repetem um padrão.

O ensino de arte nas escolas, tanto do ensino fundamental quanto do médio, tem sido negligenciado de forma assustadora. Nos governos anteriores, diversas universidades federais e estaduais abriram cursos de licenciatura em dança, música e teatro (as artes plásticas sempre foram mais corriqueiras; e um certo engodo, pela forma inconsistente que é tratada no currículo), para suprir a demanda do ensino dessas linguagens. Há tentativas de retrocesso, quando a urgência seria avançarmos no ensino das artes levando as artes a sério. Querem não só tirar a obrigatoriedade do ensino das artes no ensino médio, como transformar o ensino das artes em unidade temática, abrindo mão da necessidade de especialistas em cada linguagem, voltando um pouco àquela ideia de educação artística que era aquela mistura de várias ações recreativas dispersar e sem conteúdo aprofundado.

Como assim levar a sério? A meu ver, ao se ter aula de música, deveria se aprender harmonia, conhecer diversos estilos de música, do candomblé ao dodecafonismo, e estudar um instrumento, com noções básicas de técnica, afinação, desempenho. Assim, também, ao estudar teatro, onde se deveria conhecer a grande dramaturgia, ter noções básicas de cena, de técnicas como as de Stanislavski, dedicar um tempo aos ensaios e responsabilidades do trabalho em grupo. Ao se estudar dança, da afro a Martha Graham, jovens poderiam conhecer mais possibilidades do seu corpo e se descobrir dentro desse leque de opções.

Já havia escrito uma vez que estudantes deveriam sair do ensino médio sabendo fazer um soneto tão bem quanto se faz uma ligação química. É fundamental na formação de uma pessoa que ela tenha uma diversidade de conhecimentos, raciocínios e sensibilidades provocados, para que ela tenha a opção de escolher. Com certeza, um dodecafonista que compõe conhecendo pagode tem um material em mãos diferenciado e ligado à sua cultura, e vice versa. Decidir-se por Dias Gomes, Sófocles ou dramaturgia própria também poderia ser algo possível, assim como dançar funk tendo aprendido técnicas básicas de balé clássico.

Não encarar a arte como um discurso técnico, coloca-a naturalmente no cesto da vagabundagem. É aquele horário quinzenal onde a molecada faz zoada, se mela de tinta e se diverte. Óbvio que a arte jamais pode perder seu sentido lúdico e de prazer, mas se entender que é um discurso técnico, compreender noções básicas desse universo, tudo isso além de melhorar o cidadão, pode gerar novos artistas mais completos, ou um público cada vez mais complexo e sofisticado, que poderá apreciar os matizes da criação que, consequentemente, estarão num nível de qualidade e técnica muito maiores pela formação dada a essa juventude.

O exemplo do Parque do Queimado deveria ser uma referência. Ricardo Castro foi categórico, durante a conversa, ao dizer que não gastou tanto mais para realizar uma obra sofisticada assim. Aqui, os arranjos, a ignorância, a pretensão e arrogância, o pouco caso e a equívoca economia de custos geram espaços culturais horríveis, falhos, e joga-se dinheiro público fora. Aliado a isso, a falta de uma real política de educação que valorize as artes faz do ensino da mesma um mero tapa buraco, desperdiçando a potência de jovens como os que vi, na escola onde fui jurado.

Costumo dizer que sou o pessimista mais otimista que existe. A situação atual é de desesperança, desânimo, uma nuvem de chumbo encobre o país com obtusidade, conservadorismo, preconceito e ódio. Mas temos também as obras, a pleno vapor, das novas instalações do NEOJIBA. Num bairro extremamente populoso e popular. Carente de espaços culturais, como é o padrão quando se trata de subúrbios, periferias e cidades do interior.

Que se construam teatros. Que se formem artistas e cidadãos que se relacionem com a arte; e com sua beleza, sua sensibilidade, socialização e técnica. Não sei que caminhos seguir para lutar por tudo isso, mas essa obra ao menos é uma luz.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

Todos os Artigos

Deixe o seu comentário


código captcha

Voltar

Cultura e Cidade

A Cidade do Futuro, o filme

Márcio C. Campos 24/04/2018

Várias cidades do futuro foram erguidas no mundo desde que a sensibilidade moderna se estabeleceu: da italiana e renascentista Palmanova, com sua complexa combinação matemática originando uma...

Odoyá, receba o nosso lixo!

Cláudio Marques 08/02/2018

  Por décadas, eu frequentei a festa dedicada à Iemanjá no Rio Vermelho. Desde 1986, acho, de forma ininterrupta. Eu sou diurno e sempre cheguei cedo, por volta das cinco horas da manhã. Sol...

Assine nossa newsletter