Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

O réveillon cultural e a política do carnaval

Ao caminhar cerca de um quilômetro pela Avenida Oceânica, a única coisa diferente que percebi, além de gente pra cima e pra baixo com latinhas de cerveja na mão, foram bolhas de sabão pelo ar, lançadas por um ambulante.

Fui assistir ao segundo dia de apresentações de música instrumental no Farol da Barra, realizadas pela Prefeitura de Salvador. Wagner Tiso, Yamandu Costa, Hermeto Paschoal e Sambone Pagode Orquestra eram a programação da noite.

Num ambiente muito parecido com o carnaval, no intervalo entre trios, as pessoas bebiam cerveja, falavam alto, riam, filmavam, tiravam fotos. Enquanto isso, alguns ouviam atentos, quando cheguei, a uma massa sonora por vezes distinguível, onde com muito esforço percebíamos que havia três violões e uma sanfona. Era a apresentação de Yamandu, única apresentação em toda extensão da reforma, morta em todos os outros pontos do percurso.

Acompanhei, atento, a satisfação de músicos e público, em geral, quanto aos dias de música instrumental gratuita no Farol da Barra. Imagino a emoção de um músico tocar pra uma multidão no “palco” do carnaval. Imagino o entusiasmo do público em poder ver grandes músicos, gratuitamente, no final de semana posterior ao réveillon.

Pensei e repensei se escreveria esse artigo, indo na contramão da euforia soteropolitana de desconhecidos, amigos e artistas, mas tive o “azar” de ligar a TV no Arte1 e vi uma reportagem sobre o MIMO.

Um festival que surgiu em 2004, em Olinda, que depois disseminou-se por Paraty, Ouro Preto e Tiradentes, com apresentações gratuitas do melhor da música instrumental em igrejas da cidade (claro que não daria certo, aqui, pois não somos uma cidade histórica de belas igrejas, mas a cidade onde a rua virou praça de shopping).

Afora a sensação de estar numa multidão, de estar de galera, de estar num evento “cultural” e umas pescadas no que acontece no palco, um espaço como o largo do Farol da Barra é um lugar péssimo para se ouvir música instrumental, corroborado pelo péssimo som coadunado à péssima acústica natural. Na edição desse ano do MIMO, colocaram Chick Corea na rua por conta da demanda de um músico da fama dele, mas mesmo assim num espaço não tão grande, com uma inclinação geográfica natural que permitia as pessoas sentaram para ouvir. Ninguém em pé, nem com latas de cerveja, nem papeando. Todos atentos ao concerto.

Salvador insiste em eventos megalômanos. O carnaval nos botou num patamar onde xou pra menos de milhares de pessoas é fracasso, perda de tempo, desperdício. O carnaval nos deixou numa histeria que poderia ser traduzida por uma cultura de eventos. Se não é pra milhares na rua, tem que ser TCA ou Concha Acústica ou Bahia Café Hall. Sempre pra multidão.

Em que lugares de Salvador podemos ouvir o Grupo Garagem, a Rumpilezz, a Sambone com regularidade? Que público esses grupos atrairiam (mesmo sendo a Rumpilezz uma modinha baiana atual)? A música instrumental precisa de um público que tenha intimidade com seus temas, seus músicos, seus improvisos, precisa sempre exercitar a ideia de grupo e, não fosse a Jam no MAM, e os instrumentistas baianos seriam zumbis, que acordariam de festival em festival para tocar, quando não estivessem matando cachê com bandas de axé, pagode, forró e afins.

Acho que oito dias de réveillon são tão inúteis para cidade como os sete – agora oito, também, com o pré-carnaval promovido pela prefeitura – de carnaval. Só quem ganha dinheiro são os blocos e os hotéis. Já entrevistei o presidente da Abrasel que me disse que a arrecadação de bares e restaurantes durante o carnaval é mínima. Tirando quem toca, produz ou tem hotel, só conheço gente que gasta com carnaval. Ou pra viajar, ou pra ficar e pagar táxi, cerveja, entregas em domicílio e cinemas. Ninguém trabalha, se apresenta, tem cliente no período. Um evento assim não movimenta a economia da cidade e traz um turista que é predatório. Vem pra beber, beijar na boca e depois vai embora. Não consome nossas outras culturas e artes, não gasta em bares, restaurantes, não usa os serviços de Salvador.

Além desse evento, a prefeitura vem fazendo aquelas praças gastronômicas, que disputam com bares e restaurantes nos dias que estes mais vendem. Assim também é com o réveillon, pois nenhum produtor em sã consciência vai pensar em lucrar nas festas de fim de ano disputando com apresentações gratuitas no Comércio e na Barra. De Ivete a Hermeto, não há alternativa para a produção local concorrer com a prefeitura.

A grande crítica que fiz ao Verão Cênico e à Copa da Cultura foi que o Governo do Estado estava sendo produtor de eventos, ofertando gratuitamente ou de forma bem barata arte e cultura para a população. Qualquer outro evento que concorresse com eles sairia perdendo. Os produtores independentes, os artistas que tentam sobreviver de bilheteria e apoios pontuais, perdem feio essa queda de braço.

Assim também é com a prefeitura. Óbvio que ela vai conseguir captar mais e melhor da iniciativa privada, ainda mais em megaeventos que tanto caracterizam nossa terra movida a histeria. Mas penso que não cabe ao Estado ser produtor, e sim incentivador, promotor de ações da iniciativa privada.

Compreendo a alegria devastadora de todos em ver nossas praças cheias, o povo na rua, música instrumental pra multidão, alta culinária em prato plástico a quinze reais, feirinhas e feirões. No fundo, sempre reclamamos da ausência de tudo isso, não sou nenhum tolo.

Entretanto, meu foco não é a festa, a alegria, a farra. Como uma bolha de sabão, eventos assim são içados aos céus e depois pipocam, mostrando a falta de conteúdo e efemeridade dessas ações. Adoraria estar enganado, mas não imagino esse evento de música instrumental como alavancador de um imenso público, de apresentações contínuas na cidade, de uma cultura e tradição de música instrumental em Salvador.

Tive o azar e a sorte de estar na Bandnews no dia do anúncio do réveillon. Azar porque ao criticar o evento, sabia que eu estaria me colocando como persona non grata, visto que há uma proteção e entusiasmo com essa cultura de eventos da prefeitura, e qualquer coisa dita contra é mal vista, e sempre chegam aos meus ouvidos discretas advertências, ameaças, ao contrário de quando critico a gestão do Estado, pois o PT tornou-se um saco de pancadas (em boa parte, merecido) e virou festa bater neles, quase todo mundo acha lindo. Acresce a isso o fato de ter uma visão crítica e dizer o que se pensa, nessa cidade, é sinônimo de chatice, rabugice, e nessas horas dá vontade, quando folclorizam uma problematização, de mandar todo mundo à porra.

Mas tive também sorte, porque pude, no instante do anúncio, colocar minha visão. Falei que o dinheiro gasto para esses oito dias de réveillon poderiam, facilmente, ser investidos numa programação para os três meses de verão. Apresentações de dança, teatro, música instrumental, clássica, em praças, igrejas, teatros, transversais da Barra, tudo para um público seleto, que iria ali para ouvir música, com bom som, atento, sem zoada, latinhas, pipocas e selfies. Seria criada uma tradição não de uma vez por ano ir a um megaevento, mas de durante o verão todas as famílias estarem sempre pelas ruas, bares, teatros e praças. O hábito faz o monge, e uma criança que fica três meses indo a concertos e peças de teatro, não vai se contentar em esperar o próximo verão; ao contrário dessa cultura de eventos, que nos acostuma a esperar até mesmo um ano pelo próximo caminhão que irá nos atropelar com alegria histérica por alguns poucos dias (e confesso que não me entusiasmo em ver famílias passeando à noite pela Barra, a esmo, pois vão de nenhum lugar a lugar nenhum, enquanto teatros e casas de concerto continuam vazias; esse empoderamento – palavra tão na moda – é vazio e circunscrito a poucas centenas de metros numa cidade de orla continental).

A responsabilidade pela arte e cultura de Salvador deveria ser bem mais da prefeitura. Sucessivas gestões apequenaram o papel da prefeitura e destruíram seu orçamento. Em sua retomada, o que vemos são editais de alcance tímido, obnubilados pelos megaeventos produzidos pela prefeitura. Ora, esse órgão público deveria dar a vara, e não o peixe. Deveria incentivar, apoiar, intermediar junto à iniciativa privada produtores, artistas, para que projetos menores e mais acurados potencializassem Salvador e mostrassem ao resto do mundo que, durante o verão, mas também durante o outono, o inverno e a primavera, a cidade tem programação ininterrupta com muito pagode, jazz, stand-up, teatrão, dança contemporânea, balé, hip-hop, terno de reis, exposições, mostras de filmes, tudo para sua população.

Está comprovado que quanto mais a cidade é boa para sua população, melhor ela é para o turista. Se tivéssemos eventos acontecendo sempre, longas temporadas de xous, danças e peças, espaços culturais, bares e praças vivos, com arte, com gente na rua, transitando noite adentro, teríamos menos violência, uma cidade bem mais interessante, com mais cultura, mudando seus paradigmas e fortalecendo-se artisticamente, turisticamente e economicamente. Mas cadê que tem teatro na Barra ou em Cajazeiras? Vão pra praça, cambada, tomar uma e se divertir e tá bom demais.

A imensa massa que vai a Paris, a Londres, a Berlim, a Buenos Aires, vai a qualquer época, pois sabe que vai encontrar música, teatro, exposições, dança de qualidade a qualquer época do ano. A exceção, curiosamente, é o alto verão, quando o calor fica insuportável, nalgumas capitais, e a programação cultural diminui e muitos viajam. É nesse momento onde há festivais, xous ao ar livre, em praças, gratuitos: para mostrar um pouco do que existe na cidade o resto do ano.

Em Salvador, o turista vem para o carnaval, talvez venha para o réveillon, e depois sai correndo, pois sabe que a cidade vai morrer. Não temos atrativo algum que prenda esse turista, correto?

Não, errado. Temos arte de alta qualidade, um folclore e uma culinária riquíssimos, prédios históricos e uma tradição arquitetônica e cultura invejáveis. Mas para potencializar isso tudo, é preciso cuidar no dia-a-dia, é o trabalho de formiguinha, é tijolo por tijolo num desenho sólido, ou mágico, ou lúdico. É uma estratégia de turismo e cultura que Estado e Município teriam que pensar de forma continuada, diária, com ações a médio e longo prazo. São os diversos festivais que vêm surgindo e se mantendo, e merecem aplausos, mas também o dia-a-dia que faça a cidade respirar arte, cultura e, consequentemente, turismo, 365 dias por ano.

No entanto, a Roma Negra, Salvador, continua aplaudindo a arena. Milhares de pessoas assistindo a um grandioso espetáculo onde os leões saem sempre vitoriosos. Só que essas milhares de pessoas, felizes e saltitantes, talvez não percebam que podem estar sendo, elas mesmas, devoradas nesse grande e animado circo. David West Authentic Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 breno silva
Que bom que vc repostou no Facebook este post. Tinha algumas colocações suas que eu não me lembrava onde tinha lido. Provavelmente o post que melhor resume sua linha de pensamento, uma linha de pensamento que tem se mostrado lucida ,com analises bem sacadas e com uma visão profunda da questão cultural da cidade. . Parabens.
 GIDEON ROSA
Artigo de leitura indispensável. A cultura de eventos é uma lástima que assola a nação acima e abaixo. Só lamento que não como lutar contra mais essa forma de deficiência intelectual. Talvez cooptar ruidosamente como faz a maioria ou silenciar covardemente como fazem muitos que também poderiam se manifestar.
 Bela
Muito bem dito... É um tanto clichê mas é verdade: falta " vocação turística" o que significa isto? Como você bem falou, cidade boa para os turistas é cidade boa para os seus moradores...

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