Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Os poderes imundos e a porta dos fundos

O facebook sempre me ajuda, infelizmente, a conhecer pessoas que eu não fazia ideia quem fossem. Atores, colunistas, celebridades, não adianta passar ao largo disso se você transita numa rede social. Sempre você dará de cara com o pior, o inútil, o desagradável e o descartável seguidamente.

Hoje, choveram compartilhamentos de um rapaz que escreve para uma revista que, na última vez que folheei, Millôr Fernandes ainda escrevia pra ela.

Em sua coluna, ele criticava o depoimento de Gregório Duvivier, humorista e ator conhecido pelo “Porta dos fundos”, dado em uma entrevista à Folha de São Paulo. As frases de Gregório criticadas eram: “As pessoas não percebem que você não pode fugir da política. Fazer humor é um ato político. Você está o tempo todo se posicionando de forma política”. O colunista reclama que não se quer tratar de “temas atemporais, do amor, das tragédias de sempre, da natureza humana relativamente imutável”. Depois cita um ator estadunidense para dizer que a opinião política de um ator (autor?) não serve de merda nenhuma.

Li, certa vez, um artigo de Italo Calvino, onde este exaltava Groucho Marx porque o grande comediante ridicularizava os poderosos. Ao contrário do usual, que é assumir personagens derrotados, inferiores, discriminados, Groucho representava os poderosos e o ridículo, a falta de escrúpulos e humanidade dos donos do poder. Ficando ainda no cinema, referência mais fácil para todos, os dois filmes mais comentados de Charles Chaplin, Tempos modernos e O grande ditador, são obras-primas criadas a partir da visão política de um ator/autor sobre a reificação do homem numa sociedade industrial e a ascensão de Hitler na Alemanha.

O humor pode rir com e do. Pode-se rir com os poderosos, ou dos poderosos. Pode-se rir com os derrotados, ou dos derrotados. Há um documentário bem interessante, O riso dos outros, que discute os limites das abordagens do humor e suas implicações e consequências.

O colunista cita Nelson Rodrigues, que reclamava da politização de seus colegas, alegando que as peças de Nelson continuam sendo montadas, ao contrário dos outros. Shakespeare, que talvez, muito talvez, seja um pouquinho mais montado que Nelson, em todas as suas tragédias e peças históricas foi político.

As tragédias de sempre, às quais se refere o colunista, poderiam, talvez, não ser as de Shakespeare. Entretanto, todas as que conheço, de Ésquilo a Sartre, de Sófocles a Annouilh, de Eurípedes a Brecht, são eminentemente políticas. O amor, o ridículo de certos homens que se utilizam de seu poder para diminuir o outro, dominar, humilhar, a arrogância, a petulância, todas as questões que envolvem a natureza humana foram tratadas, nas tragédias, em situações políticas.

Pelo que conheço do “Porta dos fundos”, seus melhores vídeos são os que envolvem política. Os que tratam de questões mais amorosas e sexuais geralmente são muito fracos, apelativos e sem graça alguma, para mim (vejam bem, digo para mim!). A todo o momento eles tratam de questões religiosas, da violência urbana, dos jogos de poder em diversas instâncias – que, são sempre, questões políticas – e, como todos nós artistas, acertam e erram.

Dias Gomes – esse, ao contrário de Nelson, extremamente político, o que nos trouxe nossa única Palma de Ouro em Cannes – dizia que todo teatro era político. O teatro que não contestava as desigualdades, as injustiças e desonestidades humanas, estava assumindo uma postura política, de conivência com o estabelecido. O humorista que ridiculariza o negro, o gay, o pobre, todos aqueles que entram pela porta dos fundos, está reforçando o preconceito da sociedade, botando a audiência para rir do derrotado.

Quando o humor pretende rir do poderoso, ou rir com o derrotado, está querendo que as coisas mudem. Mesmo que o humorista seja rico, more no Leblon e tenha equívocos e contradições internas e externas em sua vida. Quem não as tem? A arte pode ter um poder transformador. Não das massas, mas da consciência de um indivíduo ou outro, que pode sensibilizar-se, repensar-se, e assim as coisas vão reverberando.

Infelizmente, a arte perde espaço seguidamente na sociedade. O estabelecido continua forte. A maior rede de televisão, a revista de maior circulação, os reais donos do poder que jamais saíram de lá e lutam, diariamente, para continuar anestesiando o resto da sociedade para que essa não tenha uma maior consciência de sua desgraça, também são responsáveis por não valorizar nossa arte, nossa cultura da forma devida: e isso vale para quase toda a mídia.

A opção de Gregório Duvivier é tentar mudar as coisas, ao criticá-las. Alertar as pessoas contra a desigualdade, o preconceito, o abuso de poder, o ridículo da sociedade. Isso, para mim, fica claro. Ele e o “Porta dos fundos” acertam sempre? Não acho. Eu concordo com todas as críticas, com os posicionamentos implícitos em seus vídeos? De jeito algum.

Bem ou mal, bem ou mal feito, coerente ou equivocadamente, profundo ou raso, eles fazem parte daquela turma que olha as diversas camadas da sociedade, e percebe as opressões, as injustiças, a diversidade de credos, culturas, cores e sexos, e provoca a sociedade a pensar nisso, destoando do discurso dominante.

Quanto ao colunista, não sei. E pelo artigo que li, não me interessa saber. Francois Beauchemin Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Geraldo Cohen
Não entendo que o negro, o gay, o pobre e todos aqueles que entram pela porta dos fundos, sejam derrotados! O problema é que, numa sociedade em que a competição é o seu princípio-fundamento, sua mais sólida estrutura para justificar ganhos injustos (base das desigualdades e das portas distintas), só há de haver dominados e emancipados. Derrotas e vitórias são raramente meritórias em sociedades competitivas, são meras consequências das oportunidades bem aproveitadas. Tanto não é mérito, é oportunismo. Impossível, portanto, cotejar comédia Shakespeareana ou Ésquilo, Sartre, Sófocles, Annouilh, Eurípedes, Brecht ou Nelson, com Porta dos Fundos. Este último (Porta dos Fundos), pelo que já vi, faz uma comédia escrachada, com nítidas influências dessa coisa que chamam de "stand-up comedy", filho único do "nunsense" americano da década de 70/80. A diferença radical é que aqueles grandes literatos produziam obras únicas, raras, artísticas; esses últimos, são produtos. A obra artística surpreende e cai no gosto popular, por ser inovadora, única e por ser obra de um artista que não aceita interferências externas na sua criação. Esse humor Porta dos Fundos/ Stand-up/ nunsense é produto criado para atender demanda externa ao criador, um público consumidor de produtos que tais.
 Solange Bernabó
Muito bom, Gil Vicente!
 Marcio C. Campos
Gil Vicente, e ao retirar a frase de Kevin Spacey do contexto da entrevista, este colunista que escreveu sobre o comediante agiu de uma maneira no minimo perniciosa, afinal a entrevista de Spacey é extremamente política! Os repórteres perguntavam a ele sobre os bastidores da Casa Branca da maneira como se perguntassem a ele sobre as útlimas técnicas de tratamento de doenças raras no pulmão caso ele estivesse fazendo o papel de um médico pneumologista... e depois desta frase, ele tem a chance de falar das implicacoes políticas do formato de distribuicao da serie, capaz de transferir mais controle e decisao diretamente para a audiencia! Abraço!

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