Cultura e Cidade

  • Cláudio Marques

    De pais e avós baianos, Cláudio Marques é fundador e coordenador do Panorama Internacional Coisa de Cinema desde 2003. Diretor, roteirista, produtor e montador de 6 curtas metragens, todos co-dirigidos com Marília Hughes. "Depois da Chuva", primeiro longa da dupla, foi exibido em mais de 30 festivais pelo mundo. "A Cidade do Futuro" é o segundo longa de Marília e Cláudio e será lançado comercialmente em 2017.

Praça Itamar Ferreira Souza

Eu tinha quinze anos e estava num show na praia de Piatã, anos 80. Milhares de pessoas acompanhavam os sucessos de uma banda popular da época, que eu nem lembro qual era.

Perto de mim, um pequeno grupo dançava alegremente. Cinco ou seis rapazes que se ‘acabavam’. Eles estavam eufóricos, se divertiam muito entre eles e isso me chamou a atenção. Em determinado momento, sem motivo aparente, uma turma de dez homens apareceu com enorme fúria e começou a espancá-los. Mesmo diante do ataque surpresa quase todos os agredidos conseguiram escapar, com exceção de um rapaz que caiu no chão e foi chutado até que a população em volta tomasse coragem e conseguisse impedir algo pior. A razão para aquela violência gratuita é que os rapazes, que dançavam e se divertiam, eram gays.

No último dia 13 de abril, o jovem Itamar Ferreira Souza foi encontrado morto no Campo Grande, região central de Salvador. Ele apanhou até a morte. Depois, Itamar foi jogado dentro de uma das fontes da praça com as calças arriadas até o joelho.

As investigações que se seguiram deram conta que um dos agressores de Itamar, uma jovem de 18 anos, carateca, gritava «Morre, Veado!» enquanto batia no rapaz já desmaiado.

Poucos dias depois, o Correio* dedicou capa ao crime. O jornal deu vazão à versão de uma delegada irresponsável, que adotou o ponto de vista de um dos acusados, que pretendia safar-se ou, ao menos, amenizar sua participação. Assim, para boa parte da sociedade baiana, Itamar tornou-se responsável por seu próprio assassinato. Foi a segunda morte para a família e amigos de Itamar. A delegada já foi afastada do caso e corre na internet uma petição por uma retratação do jornal, pela agressão covarde à memória do jovem.

Itamar trabalhou como assistente de produção em uma das edições do festival que eu organizo, o Panorama Internacional Coisa de Cinema. Foi em 2011 e ele nos ajudou com o seu jeito educado e discreto, sempre bem humorado. Não posso dizer que o conheci, mas mantenho na memória a disposição e inteligência que ele manifestou durante o trabalho.

Em 2013, ele se comunicou algumas poucas vezes comigo. Itamar me pediu informações sobre o “Depois da Chuva”, longa dirigido por mim e por Marília Hughes. Em uma última troca de mensagens, ele me  desejou sorte. E eu a ele. Itamar estava em um intercâmbio nos EUA e voltaria poucas semanas depois ao Brasil, para morrer de forma absurda na “cidade da alegria”.

O ódio contra os gays é imenso em Salvador. Vivemos em uma cidade homofóbica e é necessário reconhecer isso, com urgência. Os gays não podem existir, para muitos. Eles não podem andar de mãos dadas, trocar carinhos em público, sob o risco de serem agredidos até a morte pela população, seja ela pobre ou rica, negra ou branca, católica ou evangélica.

A morte precoce e violenta de Itamar, além de sua repercussão, me deixou profundamente abalado. Tomo esse assassinato como um marco em uma luta velada contra a intolerância e pela paz. Deve significar um BASTA! contra a homofobia em nossa cidade.

O assunto precisa ser discutido nas escolas. É necessário que educadores, artistas, jogadores, religiosos, homossexuais ou não, tragam à tona a questão. É preciso que o governador, prefeito e senadores venham à público e se posicionem sem medo de perder os eleitores. É necessário quebrar com esse ciclo de violência. Precisamos plantar uma semente, para que tenhamos um cenário diferente.

No último dia 18, eu fui ao ato pela memória de Itamar, que amigos e familiares organizaram. Estivemos ao lado da fonte, no Campo Grande, onde Itamar foi jogado. Colocamos flores, rezamos, pedimos justiça e paz. Foi um momento de muita dor, sobretudo para a família.

Para mim, a partir de agora, o Campo Grande, que na verdade chama-se praça Dois de Julho, estará sempre ligado ao jovem que teve sua vida ceifada de forma gratuita e injustificável. Para mim, aquela praça, a partir de agora, chama-se Praça Itamar Ferreira Souza e representa um importante espaço na luta contra a intolerância e homofobia. Apesar de tanta violência, estou esperançoso de que a morte de Itamar não seja em vão!

 

PS: clique aqui para o link da petição pela retratação à cobertura homofóbica do jornal correio*

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Luiz Paiva
Protestar contra um assassinato medonho é muito bem válido; agora, querer mudar o nome da praça é um pouco demais, não? Quais os serviços prestados para a nossa sociedade que esse jovem tem? Quantos jovens, quantos vidas são ceifadas neste mundão de meu Deus!!!!
 Anita
Tudo o que precisava ser dito, tudo o que precisávamos ler. obrigada
 Paulo Henrique
Bacana a colocação em relação a memoria do rapaz. Mais infelizmente não devemos maquiar a realidade, o que se vê entre amigos é a tentativa de colocar o jovem como vitima que é, mais não devemos abortar o fato dele estar naquele local. Qual o problema de assumir a possibilidade dele estar fazendo sexo? O lance é o mesmo, todos gays da cidade que sabem da sua realidade no fundo entendem que ele estava ali fazendo sexo. Isso é mais comum do que se imagina.

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