Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Racismo, homofobia, intolerância religiosa e os justiceiros do país

Muitos têm aplaudido a diminuição da maioridade penal, aprovada pela Câmara dos Deputados. Certas pessoas são extremamente violentas em condenar a violência de adolescentes, e clamam por justiça, vendo, no encarceramento de adolescentes em cadeias repletas de facções e crime organizado, a saída para a… Vingança, eu diria. Vingança com gosto de sangue. É a violência contra a violência.

Não tenho condições intelectuais para debater o assunto, nem estupidez suficiente para sair esbravejando opiniões sem profundidade sobre o tema. Entretanto, vejo nesse sangue no olho, nessa faca nos dentes do cidadão comum, que condena a violência dos menores clamando penalizações, a ausência dessas reações quando se trata de outras violências que, acreditem, estão entrelaçadas. Pior, muitos desses que vociferam e rosnam em favor do encarceramento de adolescentes, praticam esses outros atos de extrema violência.

Meu recado aos justiceiros de plantão é que se atentem às atrocidades que são feitas a todo o momento e que urgentemente precisam ser penalizadas.

Se tivessem jogado uma pedra na cabeça de algum político, de alguém famoso, com certeza haveria investigação, interrogatório, delação premiada, campanha na mídia. Mas a pedrada foi numa menina preta de candomblé. A despeito de todos os belos atos feitos por outros religiosos, a favor da menina, ninguém foi preso por tentativa de homicídio: uma pedrada na cabeça pode matar! Não se investigou quem jogou a pedra, ficou por isso mesmo, e ninguém reclamou do assunto. Cadê os justiceiros da rede? Cadê a pressão? Esse ato reforça a violência contra a mulher, contra o negro, e a intolerância religiosa. Três crimes em um.

Do mesmo modo, incitar o ódio, demonizar homossexuais em igrejas evangélicas, bem como incitar o ódio e demonizar religiões afro-brasileiras é crime. Na verdade, não é crime, o primeiro, e a justiça é leniente com o segundo, e há um lobby imenso para que a PL122 não seja aprovada, nem sequer votada. Claramente, pastores que vivem do dinheiro de seus fieis e do ódio que eles incitam nos mesmos, não querem deixar de usar o discurso do ódio que melhor se encaixa nessas religiões. Paradoxalmente, religiões que dizem se basear nas ideias do Novo Testamento, focado na vida de Jesus; que pregou o amor ao próximo, ao diferente, o perdão e o respeito.

Cadê os justiceiros que não cobram que esse crime seja justiçado? Que a PL122 seja aprovada? Por que não vemos a espuma e a baba de raiva dos mesmos que querem ver adolescentes nas penitenciárias do país? Seguidamente, homossexuais e pessoas de candomblé e umbanda são agredidas, espancadas, apedrejadas, estupradas, todos esses crimes que justificariam para os justiceiros o encarceramento de jovens menores de 18 são feitos incitados por pastores. Cadê a pressão?

Cadê que os justiceiros não fazem um protesto exigindo cadeia para todos os que agrediram nas redes sociais – mais uma vez mulher, mais uma vez preta – Maria Júlia Coutinho, a moça do tempo do Jornal Nacional? As agressões escritas são um passo curtíssimo para as agressões físicas, e o incitamento fascista constrói, formata demônios, como aqueles, com bíblia debaixo do braço, que o que menos praticam é amor ao próximo.

Numa sociedade machista, cadê a revolta com o adesivo de Dilma Rousseff, com as pernas abertas, colocada nos carros, na boca dos tanques de gasolina? Ofensa à presidente do país, legitimamente eleita, a uma mulher, e uma senhora, mãe e avó. Por trás disso, acreditem, legitima-se o desrespeito, o machismo, o estupro, a violência contra a mulher. Mas os justiceiros não gritaram contra isso.

Os justiceiros pediram justiça no caso dos 12 mortos do Cabula? Pretos e pobres?

E quanto aos 450kg de cocaína achados no helicóptero de um deputado? Os justiceiros estavam mais preocupados com o pretinho que vende pó, na favela, e que merecia estar atrás das grades porque vende cocaína para seus inocentes filhos brancos e bem nascidos, não é? Não importa os 450kg do helicóptero. Torna-se crime apenas quando uma ínfima parte dessa cocaína chega à mão de pretos e pobres que vão repassá-la ganhando muito menos que o grande traficante do helicóptero.

Em tudo isso, vemos uma evidência. Os adolescentes que são citados como violentos marginais, que estupram, matam, são sempre os pretos e pobres. Queimar um índio vivo é bobagem, se você é branco e bem nascido. Fica claro que os justiceiros são seletivos. Rosnam e espumam justiças para que pretos e pobres assassinos, estupradores e traficantes sejam entregues às facções, ao crime organizado das cadeias. No entanto, se esse mesmo crime envolve um deputado, envolve uma religião, como as evangélicas, se é ódio a uma “petralha presidente”, a viados e sapatões, se é pedrada na cabeça de uma menina preta, de uma bicha ou travesti, não é preciso pressionar a lei para que tudo isso seja devidamente penalizado.

Já foi comprovado que reduzir a maioridade penal não reduz a violência. Há estatísticas e mais estatísticas. O único ganho, disso, é ver aquele marginalzinho estuprador e assassino fudido numa penitenciária. É a vingança, a violência como resposta à violência.

No entanto, criminalizar o discurso de ódio aos homossexuais e radicalizar a punição à intolerância quanto às religiões afro-brasileiras, punir o racismo e o machismo podem frear a escalada de violência que pretos, gays, mulheres, todos esses sofrem diariamente; e que não parece incomodar tanto assim a “tradicional família brasileira”.

É preciso levar a sério essa discussão. É preciso punir quem agride e incita a agressão ao diferente, que deveria ser igual perante a lei.

Caros justiceiros, que sua sede por justiça, por vingança, por punição, volte os olhos para aqueles que mais precisam. Acreditem, prender um adolescente numa penitenciária não surtirá outro efeito além de penalizá-lo brutalmente por seu crime. Estudos comprovam isso, não é a opinião de um leigo (e nem me interessa a opinião contrária de alguém assim).

No entanto, coibir o racismo, a homofobia, a intolerância religiosa pode nos fazer dar um passo gigante para uma sociedade mais justa, onde, inclusive, menos pretos e pobres estarão na mira dos justiceiros por traficar, assassinar e estuprar a “tradicional família brasileira”.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Manthur
Belo e lúcido artigo, Gil.

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