Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

reflexões de um homem do espaço

The Magic Whip, mais recente disco do Blur, é um relato de viagem que pouco tem em comum com a narrativa clássica de um road movie; em vez disso, o eu de suas canções aproxima-se de um astronauta que, regressando à Terra, tivesse experimentado os efeitos da dilatação do tempo. Como um Marco Pólo contemporâneo ou um Colombo inebriado por ter encontrado espelhos nas Índias, o relato desta viagem ao extremo oriente – a ilha de Lantau em Hong Kong e Pyongyang são alguns dos lugares citados no disco – é, inicialmente, marcado por um difuso estranhamento: sobrevoando o mar de Java, mas também navegando sobre e sob o mar, acompanhando os peregrinos em montanhas, diante de portos vazios ou atravessando distantes dunas de areia, o errante navegante (e é impossível não pensar em Terra de Caetano Veloso ao se escutar a magistral e épica Though I was a spaceman) nos oferece uma rica descrição daquilo que muito facilmente acreditamos conhecer através de produtos de fabricação barata.

Diferente, porém, do homem que tenha visto a Terra do espaço sideral, o navegador que conta histórias ao retornar ao ocidente apoia-se em sutis referências musicais de textura, ritmo e melodia que articulam um clichê do oriente, com o intuito de decifrar para seus ouvintes uma condição tão estranha quanto os sinais de escrita chineses ou coreanos em neons coloridos ligados vinte e quatro horas, caracterizada por caminhos cíclicos, ruas solitárias, grandes telões por todas as partes, arranha-céus do novo mundo contra um céu cinza claro e desertos que invadiram os lugares onde vivemos, banhados por luz industrial.

Craig Jenckins, crítico da revista Pitchfork, toma a palavra deslocado, da canção There are too many of us, citada por vários críticos como a obra-prima do disco, como síntese do dilema posto pela tecnologia que tornou o mundo menor, mas não menos isolado, ou dito de outra forma, um mundo onde facilidade de acesso não implica em proximidade. O deslocado, condição que perpassa todo o disco, vai além da situação comum aos personagens do filme de Sophia Coppola, Lost in Translation, simplesmente isolados no hotel no meio de uma Tóquio inacessível. O deslocado em The Magic Whip abandona o quarto de hotel para realizar uma particular viagem de descoberta por entre o aparentemente indecifrável.

Lançado em abril, o disco antecipa de maneira assustadora o fato de o grande evento político do ano no mundo ter sido o deslocamento no espaço de multidões do oriente próximo para o ocidente. Falar desde Pyongyang, o título de uma das canções, com suas cerejeiras associadas ao ciclo natural do sol, é falar de um lugar inacessível – uma ilha onde se está sendo mantido – mas que será deixado no dia seguinte. Não é de estranhar que uma das canções do disco se chame Ghost Ship, que trata do ir e da dificuldade do retornar.

E se para o crítico Thomas Groß, da revista Spex, o disco é essencialmente sobre a efemeridade da existência humana e para o crítico Andrew Unterberger, da revista Spin, o tom geral do disco seja de uma melancolia derrotista que expressa a paranoia de Damon Albarn sobre este novo milênio, talvez Craig Jenckins seja o que melhor sintetize o tema deste disco ao descrevê-lo como a sensação conflituosa entre admiração e alienação que domina todo viajante por terras distantes.

Mas há algo mais neste que deve ser o melhor disco de 2015: à constatação de que “há muitos de nós, aqui e acolá, todos morando em casas mínimas” se contrapõe a última canção, Mirrorball, na qual o eu se pergunta onde estão todos depois de todas as barreiras terem sido derrubadas. A canção segue e nos informa que o globo espelhado está girando em direção ao mar e esta parece mesmo ser a versão atualizada do globo sonoro que aparece no vídeo de The Universal, a mais conhecida canção do disco The Great Escape, lançado há exatos 20 anos. Representação do espaço, que por sua natureza não pode jamais ser produzido, o hipnótico globo dos anos 90 reaparece como suporte para reflexão visual fragmentada, mas ainda sobre a esfera, e reorganiza as canções de The Magic Whip a partir desta condição ontológica: a espacial. E é nesta transferência, no reconhecimento desiludido da passagem do sonoro – espacial – ao reflexo de luz – apenas indiretamente espacial – que provavelmente resida a melancólica paranoia de Damon Albarn. Não somente o homem espacial (spaceman), que o narrador pensava ser, pode e deve ser lido desta outra perspectiva (e de maneira oposta a um personagem de road movie), como é de se espantar que ainda seja possível a um disco de música pop ser o meio de expressão para tal reflexão.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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