Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Salvador, cidade macha, ou: a morte da contemplação

"No.14", pintura de Yang Shaobin

Salvador está se tornando uma cidade masculina. Dentro do princípio do taoísmo, existem dois opostos complementares; a energia masculina e a feminina. Ativo e passivo, obscuro e luminoso, expansivo e introspectivo. Dentro de cada princípio, há um pouco do outro, naquela famosa imagem do yin yang, que já virou tatuagem e marca de lanchonete. Quando há somente o masculino ou o feminino, há um desequilíbrio, e parece ser o que acontece com a capital da Bahia.

Estamos mais brutos. Homens e mulheres – energia não é sexualidade, caros incautos – estão agressivos, ríspidos, perdemos a gentileza e a malemolência que tanto nos caracterizou aos olhos do mundo.

A cidade das mulheres, como diria Ruth Landes, é agora uma cidade de gente com pressa, de gente que ataca, que invade, que atravessa, atropela, empurra. É a cidade do barulho e da impaciência; e, na arte, isso fica cada vez mais evidente.

O público baiano quer ser ativo. Ele quer participar da peça, quer cantar a canção junto com o cantor, quer dançar e aparecer tanto quanto o artista, quer que haja somente tempos fortes, sons fortes, nada que permita respirar e contemplar.

Perdemos a capacidade de contemplação. Para nós, João Gilberto é um chato. Ouvimos João Gilberto como um velho da voz fraca que fica repetindo a mesma música sem parar, cantando sempre o mesmo repertório antigo com aquele violão sem graça. O mercado mundial da música clássica sobrevive, até hoje, das novas interpretações dadas aos clássicos por novos solistas e regentes. Mas ninguém quer saber de interpretar, ou perceber uma interpretação.

João Gilberto é um gênio e ouvi-lo exige silêncio, contemplação. É um momento onde paramos tudo para perceber como ele divide, que entonação ele dá às palavras, que onomatopeias ele tira de um X ou P. Como ele transforma um S num Z. Como ele faz uma síncope e uma divisão num samba, enquanto o violão vai pra outro lado; numa harmonia que é antecipada, surpreendente, atrasada para combinar com a nota que ele ralentou ou acelerou para dar suingue.

O mesmo vale para o teatro. Hoje em dia, o público busca entretenimento puro e simples. Uma peça que o faça rir do início ao fim, sem pensar, ou uma história que seja simples e que ele acompanhe sem precisar ter atenção, entrar no ritmo da encenação, perceber detalhes, desvelar alegorias e metáforas. Não se vai mais ao teatro para contemplar uma leitura cênica de uma história, para ver as filigranas de uma interpretação, para mergulhar num texto, numa imagem, numa sensação.

A energia masculina é ativa, é agressiva, quente, luminosa, é a energia que dedicamos ao esporte, ao carnaval, mas que precisa ser complementada pelo lado feminino: um princípio equilibrando o outro.

Atualmente, somos yang demais em tudo. As pessoas ouvem música alta em todos os lugares, e, além de alta, barulhenta, com uma massa sonora eletrônica ou percussiva que, fora da boate ou carnaval, soa como histeria, zoada. Mas somos masculinos sempre. Seja no som do carro, seja numa festa dentro de casa.

No teatro, recursos e mais recursos parecem ser colocados para que o público nunca perca o rebolado. São músicas, percussão, correria, gritaria. Há a fama do eleven o’clock show, o número musical por volta das 23h horas, nos espetáculos da Broadway, para acordar o público que desde as 21h está vendo canções melosas e cenas singelas no palco. De repente, é um grande baile, uma grande festa, algo que permita dança, música ligeira, tudo para acordar o povo. Parece que corremos atrás, para segurar nosso público, de um eterno xou (ou demônio) das onze horas.

Mesmo com toda minha paixão pelo carnaval e suas músicas vibrantes, curti muitas vezes os momentos de contemplação com alguma canja de Milton, ou solo de Armandinho, pois mesmo no carnaval podemos respirar e ouvir algo que não seja aquela massa sonora que nos faça pular sofregamente.

Não lemos mais. Jorge Luis Borges deve ser tão complexo quanto a teoria do buraco negro, para o leitor comum. Parecemos não estar preparados para o feminino, a contemplação, a introspecção, o passeio pelo obscuro, pelo mistério, pela sombra.

Queremos sol. Barulho. Explosão. E qualquer coisa que venha a ferir essa vibração completamente masculina, é tida como algo desinteressante, enfadonho, estranho e, portanto, evitável.

Salvador, cada dia mais, está recheada de festivais. Houve o Bahia em Cena. Agora, o Vivadança. Também o de cinema francês da Varilux. Mas nada disso faz parte da agenda da cidade. As pessoas não comentam pela rua como comentariam ou xou da banda tal do carnaval ou uma dessas comédias em pé, que arrancam um riso frouxo e superficial de todos.

Não tenho nada contra o ligeiro, a fácil digestão, o solar e vibrante. Mas como diria nosso colunista Márcio Correia Campos, adoro carnaval durante o carnaval na exata medida em que odeio carnaval o resto do ano.

Queremos viver um carnaval o ano inteiro. Até mesmo nossos governantes reforçam essa ideia. Mas essa festividade, essa exacerbação, também é motivo e consequência de uma masculinização da cidade que tem nos tornado mais violentos, mais intolerantes, mais impacientes, e, consequentemente, menos contemplativos, introspectivos, sensíveis e plácidos.

A cidade precisa voltar a ser mais de Oxum. Ryan Callahan Authentic Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Carlos Santiago
Sim, tudo a seu tempo, a seu momento a seu instante. Tudo não deveria ser junto e constante. Muito menos impactante, com sons estonteantes. Reconheço, sim que a cidade está filosoficamente machista. Esta rompida com a elegância dos primórdios andar dos haussás - antes sem pressa. Salvador - Cidade Primaz - carece de mais poética da feminilidade ética, de Paz para que o povo sem medo volte a sair, confinado que está ao degredo das grades em portas/janelas, pois quem vive precisa viver com arte e ver artes sob proteção dos Santos todos da Bahia..(C.S)

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