Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

Salvador, cota 100

Um texto ficcional sobre um futuro muito, muito distante.

Não havia outra razão que arbitrariedade para o número 100 ter sido escolhido como a cota da grande concretagem de Salvador. 100, para funcionar como cota, é um numeral comum, corriqueiro e consta de todos os escalímetros e fitas métricas, ainda que, como dito, não foi esta vulgaridade motivo de escolha.

Já não havia àquela época – e não faz tanto tempo assim – mais referência alguma sobre a cultura espacial da cidade, tudo vinha sendo perdido aos poucos, então em uma otimização final da série de decisões históricas em prol de um orçamento saneado e uma eficiência administrativa tida como ideal para os parâmetros daquela cidade, foi feita a opção por uma concretagem completa, tomando o perímetro da cidade, elevando formas até a cota 100 e concretando tudo.

Ah, como o tempo perdido foi lamentado. As últimas árvores a serem cortadas foram as mais antigas, situadas em uma rua, ou melhor, uma avenida longa, cujo nome remetia a alguma data histórica do país, mas que ninguém lembrava mesmo mais o que aquela data representava. Estas árvores cobriam a rua de um lado a outro, por isso produziam muito trabalho para a limpeza pública. O último rio a ser tapado foi uma comoção: como ele estava situado em uma área de pouco acesso à grande parte da população, quando esta soube da notícia pela TV, ficou pasma, pois já não se recordava mais que em um espaço urbano pudesse haver rios. Por esta época, sabia-se apenas que o nome do estado do Amazonas era originário de um grande rio que antigamente o cortava do oeste a leste (ou seria de leste a oeste, ou seria de norte a sul?)

Muito antes de o último rio ser tapado, foi feita a construção de dois estádios de futebol na área onde antes se acumulava água, próximo ao primeiro estádio, mais antigo. A razão de terem secado esta grande poça d’água – cuja origem ninguém mais conseguia imaginar – foi a decisão de um tribunal na capital do país a favor de duas marcas de líquidos engarrafados que entraram na justiça contra a exclusividade de publicidade sobre equipamentos esportivos. Para evitar quaisquer recursos e ressarcir os lucros com a publicidade que a duas marcas não tiveram no tempo, o tribunal determinou que os dois novos equipamentos esportivos fossem construídos ao lado do primeiro. Não teve jeito senão secar a grande poça d’água.

Por esta época, haviam perdido, por falta de uso e necessidade, todo o registro de objetos de interesse cultural, até porque tudo, tudinho, em uma gloriosa e lucrativa ação, já tinha sido substituído por hologramas, de manutenção muito mais fácil que os originais e sem risco de depredação. Poucos ainda lembram que existiu um espaço de planta quadrada coberto de azulejos vindo de outro país – deve ter sido o país que colonizou o Brasil, mas também isso já tinha sido esquecido – que ficava ao lado de uma igreja famosa antigamente, muito antigamente, com o interior que se dizia coberto de ouro. Os azulejos foram perdidos aos pouquinhos, sumindo, caindo pedacinho por pedacinho, aí quando viram que já tinha se perdido mais da metade, resolveram retirar tudo com uma picareta. Depois foi a vez da igreja ao lado – ah, é difícil lembrar o nome – que perdeu o telhado, molhou dentro e tudo se perdeu. Quando fizeram o holograma, já não se tinha certeza se um dia ela tinha sido mesmo coberta de ouro.

Por esta época já fazia muito tempo que todas, todas as calçadas da cidade tinham sido modernizadas; pedras irregulares, de duas cores, nem mesmo em forma de holograma aquela coletividade aceitava. Na praia do porto tudo já havia sido trocado, por tudo novinho em folha: chão de concreto, balaustrada nova, areia nova, banheiro novo, até trocaram os fortes, que estavam com uma aparência meio velhinha, pondo no lugar – antes dos hologramas – uns exatamente iguais aos originais, porém feitos de um material revolucionário, super novo à época e que prometia resistir implacavelmente ao mar, ao sal, ao sol e aos habitantes da cidade. Bem, o que aconteceu com estas réplicas, ninguém sabe mais, também ninguém mais se importava, porque vieram os hologramas.

No centro antigo da cidade, houve problemas com alguns técnicos de fora, muito estranhos, que vieram para a produção das imagens e que começaram estranhamente a perguntar como eram as casas antes dos longínquos anos 90 do século XX. A ideia deles – e por isso era claro que eles não eram da cidade – era de que talvez as casas não tivessem sido executadas em laje de concreto nem tivessem tido pinturas com as tintas industrializadas. Mas isso foi na verdade um pequeno ruído, causou pouca discussão, porque ninguém na cidade sequer entendeu o que eles estavam tentando perguntar. Ora, se eles estavam vendo nas casas do centro uma laje de concreto e uma parede pintada de lilás, que eles fizessem assim, e pronto. As holografias agradaram a todos que ainda ali residiam.

Foi assim que, convidando uma consultoria de algum país asiático que havia se transformado em uma potência financeira em menos de 15 anos, a cidade percebeu que estava sendo ineficiente com o trato dado ao seu espaço e que estava muito longe de uma ideal condição de fluidez econômica total. Como o tempo dos consultores não lhes permitiu detalhar as recomendações de ação sobre o espaço da cidade, couberam aos técnicos locais as decisões finais. Houve um problema com o tradutor, mas isso ninguém admitiria. Fato é que a interpretação das recomendações teve como consequência a decisão pela concretagem total. A escolha da cota 100, como dito, foi arbitrária. Houve quem achasse lindo as pontas dos prédios “rompendo” poeticamente a grande laje. Mais recentemente foram verificadas grandes fissuras na sua superfície. Normal.

 

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 liliane orenstein
Parabéns, Marcio, pelo excelente artigo, apesar do que, espero do fundo do meu coração, que sua profecia não de realize, ou melhor, como o texto é antigo, que ela se realize apenas no que já foi feito. Finalizando, lhe recomendo o filme em cartaz, O Doador de Memórias, que de alguma forma, senti que seu texto me remeteu a ele. Ou então, enlouqueci de vez. .Abç.

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