Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

Segunda-feira de Carnaval, dos protestos às divas gays

Eu tinha estado na sexta no Carnaval, quando fui de carona até a Barra. Ontem eu resolvi enfrentar as dificuldades de quem mora na Federação, lugar perto o suficiente do circuito para dificilmente um ônibus não estar cheio e para os táxis simplesmente te recusarem; folião na Federação em geral tem que ir e voltar a pé. Lá fui eu por volta das 16 horas descendo as escadas ao lado da igreja de São Lázaro, para fazer o percurso contra o fluxo dos blocos em direção ao Farol da Barra, e motivado em procurar Coca-Cola no circuito, curiosidade despertada por um posting de James Martins no livro de rostos, que tinha bebido algo com sabor que deveria ser o de Coca-Cola, mas que não era. Chegando em Ondina, logo ficou claro que seria impossível comprar uma Coca-Cola, banida do Carnaval completamente não por qualquer impulso de nostalgia anti-imperialista. Enquanto é possível comprar meio que cladestinamente outra marca de cerveja que não a do monopólio patrocinador, no campo dos refrigerantes e da água mineral o monopólio se mantém intacto. A demanda por bebida alcóolica deve ser mesmo muito maior.

Mas caminhar por Ondina sem blocos ou trios, ao lado do imenso paredão dos camarotes que se estende das Gordinhas até o Espanhol, serve para rapidamente deixar o problema do monopólio das bebidas de lado e, diante do vazio que permite tão claramente perceber aquela configuração espacial, lembrar que só mesmo muita vontade e desprendimento para um carnaval de multidão num lugar sem praticamente nenhum escape. Muito diferente do centro ou da Barra, não há transversais, não há acesso frequente a “rua de trás”. Chegando à altura da Sabino Silva, constatei que o serviço de moto-táxi opera com oferta demasiadamente excessiva: ali, vários prestadores deste serviço mercavam viagem até a Barra aos passantes. Pensei que o carnaval estava cheio de preguiçosos, que nem sem confusão alguma querem pisar na rua e que essa deveria ser uma rota de camarote a camarote, o que talvez fosse melhor mesmo fazer de helicóptero. Nessa hora, descobri uma banquinha, parecida com aquela de jogo do bicho, que era um ponto oficial de reclamações, sugestões e informações da Prefeitura. Fui até ali e, diante de duas jovens e um rapaz ainda mais jovem, perguntei se era permitido reclamar do monopólio das bebidas ou se aquilo estaria fora do rol de reclamações. Elas responderam que eu poderia sim, ao que o rapaz comentou imediatamente que eu não deveria gostar da tal cerveja laranja. Eu disse a ele que poderia ser a que eu mais gostasse, mas que ali se tratava da reclamar da liberdade do vendedor e do consumidor. Ele entendeu direitinho.

À porta de um dos camarotes, que assim de fora já não parecem tão glamourosos como antes, os funcionários sofriam uniformizados de paletó e gravata (para quê isso mesmo?), pouco antes do primeiro trio surgir na curva do Cristo, tocando música sertaneja. Lembrei-me de Leilane dizendo na TV no dia anterior que qualquer tipo de música cabe no carnaval (um dia ela vai ter que explicar isso), mas lembrei também que o carnaval, desde que reconfigurado pela indústria da música pop, oferece às massas o produto de sucesso no momento. Voltaremos a isso mais adiante. Para minha surpresa, os novos bancos na curva do Cristo não foram retirados para o Carnaval, e muita gente ali sentada poderia servir a uma nostalgia das Mercês e Piedade até o início dos anos 80. Mas não tem nada a ver.

Já na Barra, encontrei um ex-estudante que me relatou o protesto dos ambulantes, causa do atraso na saída dos trios. Nesta hora entendi a forma meio desconfiada nos sorrisos com que o grupo da banquinha de reclamações de Ondina ouviu a minha queixa. Iniciado na área do Cristo, o protesto seguiu também contra o fluxo dos trios até o Farol da Barra, em um contraponto interessante ao ritual das festividades engajadas no Garcia que aconteciam ao mesmo tempo. Ardia mesmo ali, naquela fila ininterrupta de caixas de isopor, geladeiras, banquinhos tudo no mesmo tom horroroso de laranja acompanhando a orla. Mas esta hora a tensão já havia sido dissipada e Filhos e Filhas de Gandhy – os primeiros pelo visto deixaram de ser modinha entre os meninos da classe média branca de Salvador – vinham amaciando tudo no ijexá. Imediatamente depois, o bloco Corujas, lotado por muitos homens e pouquíssimas mulheres, era levado por Ivete Sangalo, a primeira das três divas do carnaval de trio, que desfilariam quase que em sequência direta. Ainda que esta vizinhança no percurso entre Ivete, Daniela Mercury e Claudia Leitte à frente de seus respectivos blocos sirva para conferir nitidez a uma estratégia que vem permitindo o exaurido modelo do bloco de trio se arrastar pelos anos, bastaria ver Os Corujas passarem para se ter uma visão clara de como os elementos que geraram uma crise em um modelo podem ser reconfigurados para a manutenção do modelo.

A crise do carnaval de Salvador tem, entre muitos, dois pilares essenciais, relacionados ao fato de a partir da década de 1980 o carnaval ter sido submetido às regras de produção e consumo da indústria de música pop. O sucesso comercial atingido por Luis Caldas e Olodum, no início da passagem do vinil ao CD no Brasil, transformou o carnaval em uma data a mais – ainda que especial – na agenda de estrelas da indústria fonográfica que passaram a ter como público multidões por todo o país e mesmo fora dele. A mudança de escala deste produto, ao sair da cidade e se consolidar no país como um produto pop, atraiu para o período do carnaval em Salvador milhares de turistas que literalmente tomaram o espaço do carnaval. Aqui se estabelece um pilar da crise: se as festas de largo e o carnaval eram o lugar pulsante entre artistas e o público local, de onde boa parte da produção musical garimpava motivos e inspirações para seus novos hits, a população local foi se tornando minoria tanto nos blocos como nas ruas, até mesmo chegando a deixar a festa de lado, obedecendo a uma lógica implacável de oferta e procura transcrita em preços cada vez mais inacessíveis, que por sua vez originou uma espiral de desconexão entre artistas e plateias que inevitavelmente levou à já tão conhecida repetição de fórmulas atualmente completamente exauridas. Mataram a galinha dos ovos de ouro.

O outro pilar da crise é mais amplo, da própria indústria fonográfica, de caráter global e tecnológico, que foi a quebra das vendas através do download de música na internet. Organizado para gerar grandes vendas de discos e dvds, o carnaval rapidamente deixou de ser um luxo ou mimo das gravadoras para se tornar algo dificilmente financiável, considerando, entre outras coisas, o patamar de cachês alcançado pelas suas estrelas, que, como todos os músicos no mundo, de uma hora para outra deixaram de vender discos na escala que vendiam. Aqui mais uma vez, a desconexão com a escala do local é a chave para uma crise de um produto que vê toda a sua lógica de distribuição e consumo ruir e ser remontada a duras penas no mundo inteiro. Seria impossível para o carnaval de Salvador escapar disso, ainda que a insistência no modelo dê a entender que muita gente considerou (será que alguém ainda considera?) esta transformação uma marolinha.

O que ficou claro nesta segunda-feira de carnaval é que no carnaval da Barra o modelo do bloco de trio se ajustou a uma das estratégias da distribuição e consumo pop internacional após a revolução digital: as grandes divas da música são posicionadas como madrinhas de distintas tribos gays, como parte de um processo inicial – “vanguardista”, de estabelecimento de padrões cult – de definição estética dos distintos produtos e sustentação comercial por fidelidade. Assim como Lady Gaga, Beyoncé, Miley Cyrus ou Katy Perry, a estratégia de quem ainda tem o potencial de vender produtos musicais a partir do carnaval, ou seja Ivete Sangalo, Daniela Mercury e Claudia Leitte, passa pela transformação dos seus blocos em espaços quase que exclusivamente gays. Se durante o período de estabelecimento do carnaval do axé e do carnaval da Barra, até o ano 2000, quando se refuncionalizaram a música, a corda e o espaço do carnaval, os gays estiveram essencialmente fora das cordas, como já descrevi no artigo que escrevi em 2010 intitulado De muquiranas, piratas e marinheiros a gays: o espaço homossexual dentro do carnaval de Salvador nos últimos 25 anos, agora os gays, paradoxalmente de dentro da corda ajudam a conferir uma sobrevida ao modelo, cada grupo celebrando sua diva particular. Onde no mercado internacional a cultura gay é usada como promotora no tempo das divas pop (o sentido temporal de vanguarda estética atribuída aos gays), no carnaval da Bahia, o sentido de exclusividade e pertencimento, continua sendo garantido pela dimensão espacial.

Eu vi as três divas com seus fãs gays dentro dos blocos passarem e voltei para casa acompanhando a pipoca de Armandinho, Dodô e Osmar. Depois continuei a pé até em casa. Obviamente sem fazer uso do serviço de moto-táxi, como também sem ter consumido a cerveja laranja. O azul de Zanzibar.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Alessandro Gentil
Fantástica a sua percepção desse momento em que o carnaval se torna um fenômeno pop. Tudo que é pop esta sujeito aos apelos coletivos de quem o consome. Inclusive ter um patrocínio exclusivo, de uma cerveja. O mais forte que sinto nisso é que a muito tempo não se sabe pra onde o carnaval de Salvador vai seguir ou se vai assumir uma identidade. Esse carnaval sempre foi camaleônico, mutável (não tem nada a ver com o bloco camaleão) Lembro de uma entrevista de Armandinho que disse que quando viu o trio de Luis Caldas pela primeira vez na avenida com um sintetizador afirmou: - isso não é música de carnaval, não vai dar certo isso. E deu! Carnaval da Bahia (como se costuma chamar ) é assim, um fenômeno pop.

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