Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Sobre edital, profissional e pá de cal

Em seu discurso de posse como Secretário de Cultura da Bahia, o professor Albino Rubim citou, para ciúme das outras artes, o teatro profissional baiano. Era início de 2011, reeleição de Jaques Wagner, e seu discurso, oportunamente, referiu-se à área que mais embate teve com a gestão passada da pasta.

Pouco tempo depois, o secretário fez uma reunião com alguns artistas da cidade, com foco na discussão do teatro profissional em Salvador; o que causou ciumeira nos que não foram chamados, e um entusiasmo perigoso nos que estavam presentes.

2011 foi um ano fraco para o teatro. O Fazcultura, demonizado como um programa do governo onde as decisões ficam na mão da iniciativa privada, foi a ferramenta que conseguiu dar um fôlego para que o ano não passasse em branco. O Vivo Encena patrocinou o festival Bahia em Cena e o espetáculo Sargento Getúlio, abrindo exceção por ser uma data comemorativa e a abertura do festival citado acima; visto que o programa da Vivo não tinha como foco patrocinar, através do Fazcultura, montagens de espetáculos. Namíbia, não! foi exceção que confirmou a regra da ineficiência dos editais e muito pouco se fez.

A despeito do descrédito do Prêmio Braskem, o reflexo do arrefecimento da produção profissional baiana ficou claro nas indicações de melhor espetáculo. Dos cinco indicados, um era de alunos da Escola de Teatro, outro, uma peça de formatura da mesma, além de Fim de Partida, produção da Companhia de Teatro da UFBA.

A Secretaria de Cultura justificou a falta de incentivo por conta das dívidas herdadas da gestão passada, e todos aceitaram um ano de vacas magras para que a casa fosse arrumada e os artistas e produtores fossem pagos.

O ano de 2012 começou sem perspectivas claras para aquecer o mercado teatral em Salvador. Uma contenda entre Secretaria de Cultura e Vivo Encena fez o segundo se afastar, com seus investimentos, do teatro profissional na cidade. Como em samba de pombo urubu tá sempre errado, prefiro me abster de entrar nessa confusão, apenas registrando que, nessa contenda, quem mais perdeu foram os artistas. A Coelba e a Bahiagás chegaram a lançar propostas via Fazcultura, mas, de fato, até o momento não vimos nenhuma empresa de porte marcando presença na produção teatral da cidade.

Desde o início do século XXI que o “teatro baiano” (na verdade, o teatro produzido em Salvador) começou a passar por problemas de produção e sustentabilidade. O empresariado baiano foi paulatinamente sumindo, com seus investimentos, e uma ideia de democratização, descentralização e incentivo dos desfavorecidos, em detrimento dos que vinham produzindo por diversos mecanismos de isenção fiscal, patrocínios diretos e, raramente, editais, acabou por, junto com a verba, pulverizar a produção da capital.

Houve um enfraquecimento do Fazcultura, com uma produção pouco atrativa aos olhos dos empresariados que, noutras épocas, chegavam a ir atrás dos artistas para patrocinar ou apoiar financeiramente. A concentração na política de editais e o fortalecimento de um Fundo de Cultura do Estado da Bahia – concentrando, inclusive, recursos outrora destinados, pelas empresas, ao Fazcultura – provou não dar conta de uma efetiva, diversificada e contundente produção em Salvador.
Muitos espetáculos passaram a cumprir a temporada exigida e depois sumir, sem fazer carreira, circular, participar de festivais e ter uma sobrevida que justificasse um investimento público. Considero um desperdício de verba pública destinar-se a um projeto seja 50, 100 ou 150 mil reais, e esse projeto não ter uma carreira, não atingir uma meta mínima de público, não ter um planejamento que não o torne dependente apenas do edital.

A obra de arte precisa ser vista e penso que quando o governo investe nela, é pra que essa obra possa dialogar com a sociedade, seja algo que dê um retorno ao público comum com o que a arte tem de mais essencial para o homem: a poesia que falta no dia-a-dia, a reflexão que passa por outros caminhos que não o panfleto e o discurso da mídia.

Num ano de pouca e pobre produção teatral, a Fundação Cultural do Estado da Bahia lançou um edital chamado Setorial de Teatro onde o conceito era que qualquer projeto vinculado às artes cênicas poderia ser contemplado de acordo com sua relevância para a comissão, ao contrário dos editais da gestão passada, que eram divididos em categorias como montagem, circulação e manutenção.

Foram dezoito projetos aprovados. Como o próprio site da FUNCEB divulga, foram nove projetos de difusão/circulação, quatro de formação, três de criação e dois de produção. Esse resultado é um reflexo da crise que se instaurou no teatro de Salvador. Dos dezoitos, treze foram de formação, circulação e difusão. Com isso, percebe-se uma tendência na comissão. Há, inevitavelmente, uma constatação: incentivar a formação, difusão e circulação são quase decorrências das necessidades profissionais, em boa parte, de uma classe. A necessidade de formação é para se ter uma técnica apurada para a realização de um espetáculo. E é preciso grandes espetáculos para que a circulação e difusão sejam válidas. Contudo, justamente esse elo da cadeia produtiva, o fundamental e que fortalece todo o resto, foi enfraquecido.

Três festivais foram contemplados. Ora, um festival é algo estrategicamente fundamental. Algo que não deveria concorrer em editais, deveria ser algo que tivesse verba direta e não precisasse concorrer com outros projetos. Mas a comissão teve que escolher entre um festival de cerca de noventa mil e montagens de duzentos mil. É de uma covardia e esquizofrenia sem tamanho, e uma concorrência desleal, pois deixar de contemplar dois festivais que, juntos, somam menos de duzentos mil, para aprovar uma montagem de duzentos mil chega a ser loucura. Por quê? Justamente porque devem ser políticas diferenciadas dentro de uma secretaria de cultura.
Como foi dito acima, os artistas que mais tempo vêm fazendo teatro, estando regularmente nos palcos, criando obras que possam ter uma carreira e dialoguem com o mercado de forma a que o projeto gere um mínimo de sustentabilidade, esses artistas poucas, pouquíssimas ou até mesmo nunca produziram suas obras através de editais.

Eu, por exemplo, ainda iniciante, com apenas treze anos de carreira, só fiquei um ano sem produzir nada em teatro: 2007 (coincidência, ou não, primeiro ano do PT na Bahia). Em treze anos de carreira concorri umas trinta vezes entre editais de montagem estaduais e federais e ganhei apenas uma vez, com Os javalis. Se eu, neófito, já estou calejado e acostumado a perder editais, quanto mais profissionais com anos de profissão: e edital não é política pública e nem o x da questão. Infelizmente, mais uma vez, após o resultado do Setorial de Teatro, as discussões pareceram girar em torno de quem ganhou e quem deixou de ganhar. Mais uma vez, a classe, difusa e desunida, aproveitou-se de um edital “balaio de gato” para alfinetar e se enfraquecer internamente, quando o foco não era, não é e nem pode ser quem ganhou e quem perdeu, e é engraçado como alguns vestem a carapuça das críticas que são direcionadas ao Estado, e não a nenhum artista específico. “A casa dividida não fica de pé” (Mateus 12.25b), e a falta de união pelo bem comum só corrobora o pouco caso dos poderes públicos.

Uma reportagem foi feita discutindo os rumos do teatro profissional em Salvador. Esse teatro que é feito com regularidade, que se pretende inserido num mercado consumidor, com carreira, temporadas, festivais. E neste aspecto, como saiu na reportagem em uma citação minha, esse edital foi uma pá de cal no profissionalismo que se poderia pretender para o teatro na cidade, pela analogia com o escasso incentivo à produção local.

Para quem não sabe, a utilização da expressão “pá de cal” refere-se ao último ato feito no enterro de um defunto. Um mero edital equivocado, difuso e que, em sua perspectiva de contemplar tudo, acabou por desequilibrar a balança entre produção e os outros elos da cadeia, não tem relevância, por si só. Contudo, ele é o reflexo de toda uma conjuntura onde a fuga do empresariado, opções complicadas e decisões aparentemente equivocadas das políticas públicas acabaram por enfraquecer de vez o mercado do teatro em Salvador.

O teatro é uma arte coletiva. Tanto no fazer quanto no aparecer. Uma andorinha só não faz verão e a sensação que tenho, quando olho os roteiros de teatro da cidade, é desoladora. Não adianta me dizerem que o Teatro NU fez uma temporada em julho de Os javalis, uma em agosto de Sargento Getúlio, e depois vai viajar para Porto Alegre. Se o mercado não está aquecido, se estão acontecendo, raramente, grandes produções, projetos de visibilidade e qualidade – sim, há teatro de qualidade e há o teatro ruim que, além de ser ruim pela sua simples existência, ainda afasta o público fazendo um desserviço à classe –, se a efemeridade, fragilidade e irrelevância de produções impera, não há como tocar um projeto de teatro sério, profissional e a médio e longo prazo na cidade.
Estamos numa encruzilhada. De cá, para conforto dos de lá, nos engalfinhamos em picuinhas, revanchismos, invejas e disputas. De lá, o poder público nada faz de eficiente e programado, somos cada vez menos estimados pelos empresários, as perspectivas se fecham e a situação é calamitosa.

Resta, por enquanto, torcer para que os projetos aprovados no Setorial de Teatro inundem de qualidade e energia os palcos da capital e do interior. Que o pouco que foi aprovado traga uma relevância e uma significância imensa ao público, tão desacreditado em relação ao que se produz aqui. Precisamos voltar a pôr a cabeça pra fora da lama, precisamos ser vistos, precisamos voltar a ter credibilidade, dignidade, relevância no cenário artístico da Bahia. O antes tão bem falado, criticado e viajado “teatro baiano” precisa se reerguer. O profissional dessa classe precisa voltar a produzir e dar continuidade aos seus projetos.

Ano que vem é Copa das Confederações. Daqui a dois anos, Copa do Mundo. Precisamos de um novo prefeito que cumpra sua obrigação de incentivar nossa cultura, coisa que estupidamente não vem sendo feita. Precisamos ter a chance de mostrar que Salvador não é só aquela imagem batida, e que temos uma cultura forte, sólida e diversificada que pode, também, ser de interesse do turista, pode ser mercado, pode gerar renda e fortalecer a economia. É preciso incentivar a produção local para apresentarmos nossa diversidade e riqueza, e há recursos, estão investindo muita grana nessas copas. Porém, dinheiro teria também para o centenário de Jorge Amado e por enquanto a grande ação cultural do Governo Estadual foi colocar placas de outdoor pela cidade.

Não será com promessas vãs de um Secretário de Cultura (que domaram os protestos da classe), com o descaso do governo estadual, com a ignorância do governo municipal, com o descrédito de empresários e com editais pífios e esquizofrênicos que chegaremos lá.

 

(artigo originalmente publicado em agosto de 2012)

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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