Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Sobre Platão e Jorge Luis Borges

Pouca gente sabe, mas o Shazam da música que meu pai fez com Antonio Carlos & Jocafi, com o qual aprendeu-se a sorrir, era o cão de meus pais.

Platão, meu cão, sorriu por cerca de 15 anos ao lado de muita gente que vai sempre lembrar de alguma história com ele; seja pela sua forma de “sentar”, pela compulsão por sua bola, seja pela forma como ele lutava boxe comigo.

Lembro de um dia que Claudinho subiu na minha frente, lá em casa, e Platão – com seu instinto de cão de guarda – subiu as escadas deixando um pingo de xixi em cada degrau. Em silêncio. Ou quando Matias, achando que ia se ver livre dele, jogou seu brinquedo ao longe; e foi a senha para que, durante toda a farra de um jogo da Copa, Platão jogasse seu brinquedo no colo de Matias.

“Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas”, poderia dizer Platão, com sua intensidade exaustiva nos latidos, brincadeiras com a bola e sua eterna fome e gula. Mas esse é um verso de Jorge Luis Borges.

Recebi a notícia que Platão seria sacrificado no exato momento em que estava entre a rua Jorge Luis Borges e a rua Guatemala, diante da placa indicando o lugar que Borges passou sua infância e parte de sua adolescência.

“O animal morreu ou quase morreu. Restam o homem e sua alma.” O elogio da sombra que Borges fez servindo de epitáfio a cão tão luminoso.

Parei numa banca. Comprei uma flor branca. Na Praça Güemes depositei a flor junto a uma árvore, próxima a crianças que brincavam efusivamente; bem o espírito de Platão.

Caminhei todo o percurso imaginando as ruas que Borges percorreu, e o quanto seus labirintos estão mais próximos do grande deserto da alma, que insiste em buscar a sombra. “Vivo entre formas luminosas e vagas que não são ainda a escuridão.” Borges estava ficando cego, e contemplava sua velhice porque sabia de sua finitude. Por isso, talvez não sorrise tanto em seus escritos.

Quando encontrei Platão espumando de uma convulsão, com as pernas de trás imóveis, ele me olhava com aquele olhar puro de não entender porque a vida é esse mistério que fez o homem inventar deuses e a arte.

Borges concluiu seu poema imaginando que breve saberia quem ele era.

Platão foi sacrificado sem saber por que, sem saber quem era, sem entender ou entendendo demais o que era o amor; suficientemente talvez para nós não entendermos o amor como realmente ele é.

Deixou essa vida indecifrável como o zahir, o aleph, tlön, uqbar, orbis, tertius, com aqueles olhos simples, já gastos como os de Borges.

O escritor argentino aprendeu muito, e dizia, com o avanço de sua cegueira, que “das gerações dos textos que há na terra só terei lido uns poucos, os que continuo lendo na memória, lendo e transformando.”

Platão não aprendeu nada. Nem o lugar certo de fazer xixi, nem o comportamento correto com as visitas, os gatos, a bola, a comida.

Mas ensinou muita gente a sorrir. De uma maneira diferente, inusitada, inesperada. Como deve ser o riso. Como era a literatura de Borges. Como foi a notícia que me chegou, em frente à placa indicando onde o escritor argentino nasceu e cresceu, e onde, agora, esses dois ceguinhos que tanto amo serão sempre lembrados por mim; na esquina da rua Guatemala com a rua Jorge Luis Borges.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Jorge Alfredo
que texto delicioso!

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