Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Sobre políticas, teatro e as pedras no sapato; notas esparsas de fim de outono

BERLINER ENSEMBLE IST EINFACH, BLACK IS BEATIFUL

Na ida do Teatro NU ao Porto Alegre em Cena, com Sargento Getúlio, tive a oportunidade de assistir à Mãe Coragem/Brecht do Berliner Ensemble, sob a direção de Claus Peymann. Essa é a segunda montagem que assisto do grupo com direção de Peymann; havia visto lá em Berlim um Ricardo II/Shakespeare e, nessa montagem no charmoso Theatro São Pedro pude confirmar algo que, já no Shakespeare, eu havia percebido.Peymann abusa do que chamamos, em teatro, de black. Apagar as luzes do palco para transição de cena, de cenário ou mudança de tempo. É um recurso simples, óbvio, e que, durante toda minha pré-adolescência teatral (agora já sou um chato adolescente do teatro) eu ouvia que era um anátema, uma prova da falta de criatividade do diretor.Ora, não há nada mais prejudicial às artes do que a criatividade. Digo essa criatividade que, opulenta, se torna a mola mestra do processo, sendo a vedete da criação com malabarismos de recursos, ideias, invencionices e pirotecnias.

A direção de Peymann, nas duas peças, me pareceu muito mais preocupada com o miolo da cena, a construção dos conflitos e personagens (outro anátema da contemporaneidade insípida). Há uma direção que, com suas imagens, com sua ideia de texturas, cores, intenções, renova Brecht e faz uma leitura onde as grandes vedetes são o texto e os atores: pra mim, o teatro ainda é isso.

A todo o momento me contorço nas cadeiras dos teatros baianos vendo encenadores que, à busca da genial criatividade, inovação e descoberta da pólvora, vão se digladiando com o óbvio, com o superficial, com o redundante, com o ultrapassado, com modismos e firulas que sufocam e oprimem a relação texto-ator, transformando a cena numa penteadeira de puta. Muitas vezes, temos a impressão de que a primeira imagem óbvia que vem à cabeça do encenador, que poderia ser o ponto de partida para se enxugar e chegar à essência do que se pretende dizer, vira a alternativa mais “genial” e fundamental da criação.

Peymann usa o black abusivamente, ostensivamente, em momentos onde ele até poderia resolver de forma melhor, sim, para melhor funcionamento da peça como um todo. Contudo, ao entrar na cena, temos tudo ali: conflitos, atores, marcações limpas e objetivas, imagens concretas e contundentes, tensão, humor, paixão, terror e misérias na medida teatral que o texto pede. Não é o caso de falar sobre o melhor, o pior, o poderia aqui, deveria ali, tal ator isso, tal ator aquilo. É simplesmente perceber que o que faz o teatro acontecer não são as invencionices, criatividades, recursos e malabarismos estéticos. Para o teatro acontecer é preciso que se faça teatro. E o que tem de gente que parece não querer ou não saber fazer isso…

SoA BoA IdA PoA

Assim intitulei um email que mandei para os coordenadores do Porto Alegre em Cena. Pensei em escrever sobre o festival, mas preferi reproduzir o email, pois lá está a alma do que queria expressar:

“Meus caros,

Constantemente, vemos ações ao redor do país que contam muito mais como uma prestação de contas, uma fachada pretensamente beneficente para, ao fim, gerar não mais que um benefício próprio. O Brasil está contaminado pela comiseração arrivista, por aqueles que computam elevações sociais e econômicas de classes, inclusão de cores e sexos, tudo isso voltado ao bem particular: o bem comum ainda está mal e novos problemas surgem em decorrência de mentalidades que, ao invés de se abrirem e clarearem, solidificam-se em novas muralhas, novos muros que escondem oportunismos, revanchismos, pilantragem e pouco, muito pouco do que mais importa: o humano.
Minha experiência com o PoA em Cena teve um sabor especial porque participei de um momento onde pessoas altamente carinhosas, cuidadosas e atentas estavam ali para conseguir realizar um festival que, em seus números, não traz índice algum que possa figurar na lista de campanha de políticos.

A arte é inútil. Contudo, de uma inutilidade mais necessária que o pão. Através da arte, pode-se conquistar o pão. Através do pão, apenas a saciedade. A inutilidade está justamente aí: a arte não sacia, ela enleva, ela nos transporta a um outro mundo, de sonho e reflexão, que é necessário para que voltemos a por os pés no chão olhando esse chão com os olhos de madeira, como Pinóquio.
Os aplausos do primeiro dia, as lágrimas vindas de grandes artistas no segundo e terceiro dia, tudo isso foi de tal modo gratificante que digo, de forma honesta e sincera, que essas três apresentações foram o melhor prêmio que o espetáculo já teve. Sem contaminações, sem obrigações, sem amizades, inimizades, carinhos e companheirismos, tivemos ilustres desconhecidos nos assistindo sem comprometimento algum, sem pré-conceitos alguns, eram pessoas indo ao teatro ver “que diabo é esse que vem do nordeste, quase leste, essa Bahia tão mítica e folclórica e cantada e degradada”.

Como disse Camilo de Lélis, referindo-se ao nosso espetáculo (agora tão de vocês quanto da gente), o PoA em Cena está “vencendo mais uma batalha na guerra contra a insensibilidade e a barbárie.”

Parabéns a vocês todos pelo festival. Obrigado pela acolhida e pela experiência. Arranjei mais um motivo para criar. Muitas vezes dá um cansaço pensar na labuta diária em Salvador, a falta de espaço, patrocínios, reconhecimento, esse blablabla todo que talvez seja queixa de artistas ao redor de todo mundo. No entanto, participar de um festival assim renova nossas forças, faz-nos acreditar em nossa arte, na arte dos outros, na arte contra a barbárie.

Até a próxima. Espero poder estar sempre presente, seja como artista, como pesquisador, como público comum. Que os 20 anos em 2013 sejam 13 vezes 20 a certeza desse festival, e que ele possa passar de geração para geração como a certeza de um Brasil melhor.”

INUTILIDADE DA ARTE, IMPOSSIBILIDADE DE CRITÉRIOS

Falando em inutilidade da arte, estava revendo – estimulado por um grande homem de teatro – os critérios de seleção para o Setorial de Teatro, edital lançado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia.

Como já havia acontecido em diversos editais passados, uns dez, ao menos, um projeto como Sargento Getúlio jamais seria aprovado. Talvez, não à toa, a iniciativa privada – através do Vivo Encena – tenha demonstrado o interesse que os governos e artistas/comissões não tenham tido pelo projeto.

Sargento Getúlio vem fazendo uma boa carreira e representando a Bahia em festivais, como alguns espetáculos baianos, vira e mexe, e merecidamente, vêm marcando a cena nacional, também, a exemplo de Pólvora e Poesia, que está viajando o país pelo excelente Palco Giratório, projeto de circulação do SESC. Coincidentemente, dois espetáculos agraciados com a única premiação local, a despeito de todas as tolices seguidamente cometidas pelas comissões desse prêmio.

Pois, ao analisarmos alguns critérios, veríamos o quanto nosso projeto, como os outros que temos e tentamos já há anos realizar não se encaixam no dirigismo assistencialista, pseudodemocratizante e tendencioso de encaixotar a arte como algo a serviço do social, obrigando a arte a ter uma utilidade que, em sua essência, subjuga o artístico ao político, exigindo ações que, em si, deslocam a criação de sua função poética no mundo.

Vão aqui alguns critérios e a falta de encaixe de Sargento Getúlio, a título de exemplo, neles:

a) Valor cultural, priorizando-se:

ii. Relevância do projeto no contexto sociocultural de sua realização;

O romance de João Ubaldo se passa entre Paulo Afonso, na Bahia, e Aracaju, em Sergipe. Não tem relevância alguma no contexto sociocultural. Pelo contrário, é totalmente irrelevante, anacrônico. Pior seria se quiséssemos fazer um Shakespeare ou um Gonçalves Dias. Zeraríamos facilmente esse quesito.

iv. Estímulo à diversidade cultural.

O tema do romance de João Ubaldo Ribeiro é velho, ultrapassado, trata de um tema específico demais, da vida simples de um capanga pelo interior do estado. Não estimula em nada a diversidade cultural. Passa ao largo disso. Pior seria se escolhêssemos montar um Beckett, uma conversa entre dois vagabundos numa praça qualquer do mundo, ou senão um Prometeu acorrentado. Essa peça, então, nem zero tiraria nesse quesito, seria automaticamente desclassificada.

b) Consonância com as políticas estaduais de cultura, priorizando-se:

i. Harmonia com os princípios do Plano Nacional de Cultura e da Lei Orgânica da Cultura
(12.365/2011);

Quando pensamos num projeto artístico de montagem de um espetáculo, tentamos estar em consonância com a ideia do texto, tentamos estar em harmonia com a concepção, a escolha de elenco, decisões estéticas. Buscamos princípios éticos que possam trazer a relevância do tema escolhido para dialogar com o mundo em que vivemos através de um espelho torto de nossos defeitos, desejos e anseios. Priorizamos a melhor execução possível de uma obra, dentro de nossos limites, para dar como retorno à sociedade um espetáculo que possa estimular um prazer e um questionamento estético e ético. Um espetáculo que possa ter carreira, que gere discussão, que provoque o debate e o prazer. Nós somos artistas, não advogados nem políticos para pensar em planos e leis. O legislativo e o judiciário ganham tubos de dinheiro para fazer isso. Nós apenas pleiteamos uma miséria, quase o salário mensal de um político, para sustentar quase 20 pessoas durante quatro ou cinco meses, ainda pagando impostos, comprando materiais e investindo em divulgação. Nosso objetivo final é criar um consistente trabalho artístico, e não fazer proselitismo, nem ação social, nem cumprir regras impostas por pessoas que, de cultura e arte, entendem tão pouco que conseguiram deixar nosso país do jeito que está.

iii. Estratégias de democratização e acessibilidade;

Nossa preocupação deve ser com a obra artística. Nosso retorno à sociedade é produzir um trabalho digno, significativo e relevante poeticamente. O homem não vive só de pão. Vou morrer insistindo que é obrigação do estado criar estratégias de democratização e acessibilidade à cultura e à arte. Cacilda Becker dizia: “não me peça pra dar de graça a única coisa que tenho para vender”. Ganhamos muito pouco para produzir, e a tão sonhada possibilidade de viver da bilheteria, utopia inalcançável com exceções que confirmam a regra em espetáculos de humor rasteiro, geralmente, é inviabilizada ainda mais pela imposição de baratearmos nossa arte. A meia-entrada é uma das maiores sacanagens que existe, pois as pessoas se locupletam de uma lei que nos obriga a cobrar metade de nosso preço sem que haja ressarcimento. A meia-passagem no transporte público é coberta pelos poderes públicos. É como se alguém chegasse num consultório médico e pagasse meia-consulta onerando apenas o médico, ou chegasse num tabuleiro de baiana de acarajé e pagasse pelo alimento apenas a metade de seu valor, com prejuízo evidente para a trabalhadora.

Os dirigismos do edital Setorial de Teatro descartam, de forma disfarçada, projetos meramente artísticos. Temos, agora, que criar pensando num retorno social, temos agora que tapar os buracos da educação pública deficiente, temos que ter responsabilidade social fazendo oficinas, barateando nosso trabalho, discutindo em cena temas óbvios que ilustram capas de revistas semanais e conversas de bar. Tem cheiro de Stálin no ar. A arte está sendo oprimida por regras que fogem a ela. A arte acaba sendo o que menos importa. Se não fosse assim, não seria evidente a qualidade extremamente duvidosa dos trabalhos que vêm sendo financiados aqui por aí afora. Artisticamente, nos últimos anos, pouco ou quase nada de relevante, em termos artísticos, foi feito em Salvador. Contudo, projetos com ação social, inclusão social, formação social, diversidade social, relevância social, nos moldes dos governos brasileiros, foram feitos. Devemos deixar de ser artistas e sermos assistentes sociais, é isso?

Como citei acima: a arte é inútil. Contudo, de uma inutilidade mais necessária que o pão. Através da arte, pode-se conquistar o pão. Através do pão, apenas a saciedade. A inutilidade está justamente aí: a arte não sacia, ela enleva, ela nos transporta a um outro mundo, de sonho e reflexão, que é necessário para que voltemos a por os pés no chão olhando esse chão com os olhos de madeira, como Pinóquio.

Mas a metáfora do boneco de madeira serve apenas de outra forma: o nariz das gestões da cultura continua crescendo, mostrando a grande mentira que é a política cultural populista e oportunista, vinculada à máscara da ação social, que é a grande arma dos governos petistas.

PRA PREFEITO NÃO, E PRA VEREADOR PODE, WALDIR?

Falando em governos petistas, não podia de escrever esse apêndice. Deparei-me com a candidatura de Waldir Pires a vereador!

Esse político cometeu uma das maiores burrices e sacanagens de toda a história republicana da Bahia. Largou o governo do estado, tendo vencido ACM, como promessa da esquerda renovadora que soprava com os novos ventos do fim da ditadura, para ser candidato a vice na chapa de Ulisses Guimarães. Largou a Bahia nas mãos de Nilo Coelho e estendeu um belo tapete vermelho para a volta do carlismo ao poder.

Na época, ainda todo poderoso, ele vetou a candidatura de Gilberto Gil à prefeitura da cidade, no que Gil respondeu com a canção Pode, Waldir, que entoa: “pra prefeito, não, pra prefeito, não, e pra vereador, pode Waldir?”.

Pois esse homem, já governador, já ministro, está pleiteando um cargo de vereador. Rebaixamento e merecimento. A Bahia carece de um grande homem na política e estamos muito mal por isso. Se acaso estivesse em sua mão, caro leitor, a escolha de alguém, qualquer um que você quisesse dos quadros políticos baianos, para ser governador do estado, prefeito da cidade, você pensaria em alguém? Não temos esse homem, e ficamos nessa gangorra de interesses, ganhos e perdas de poder, nas mãos de uma corja interesseira, politiqueira e sem visão e contundência político-administrativa.

(artigo originalmente publicado em setembro de 2012)

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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