Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

Stonewall Inn, 44 anos de um vandalismo queer

Anteontem, no dia 26 de junho de 2013, jornais e TVs por todo o mundo mostraram dezenas de pessoas à frente do prédio da suprema corte dos Estados Unidos, aguardando a decisão sobre a constitucionalidade de algumas leis que insistiam em tratar cidadãos daquele país desigualmente.

A alegre e pacífica comemoração das famílias ali presentes que se seguiu à divulgação da suspensão da lei que permitia aos Estados proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo não nos deve deixar esquecer o marco inicial desta longa disputa. Ao contrário, a própria data do anúncio desta decisão é uma homenagem ao mais importante evento nesta particular luta por igualdade de direitos civis.

Quando há exatos 44 anos, no dia 28 de junho de 1969, aconteceu a revolta na porta do bar Stonewall Inn, havia muito tempo organizações tentavam pela via pacífica e integrada, mas sem sucesso algum, lutar pelos direitos civis dos homossexuais naquele país.

Foi a revolta na Christopher Street que veio definitivamente dar vigor à luta; naquela madrugada, travecas, bichas e sapatões tomaram coragem e partiram para cima da polícia, vandalizando tudo, em um levante movido por raiva e sentimento de justiça. Garrafas, tijolos, latas de lixo, tudo o que havia na rua foi arremessado contra os policiais, que tiveram que correr para dentro do bar para não serem linchados. O furor tomou as ruas ao redor do bar, que amanheceu completamente destruído.

Exatamente um ano depois, como um ato cívico de memória da revolta no bar Stonewall Inn, aconteceu nas ruas de Nova Iorque a primeira parada do orgulho gay. É assim que cada parada do orgulho gay é um registro simbólico de um ato político cuja força reside na explosão violenta da insurgência nas ruas. Em termos contemporâneos do Brasil, cada parada do orgulho gay é uma homenagem a vândalos.

Nos últimos dias, vários textos vêm tentando identificar o histórico recente de insurgências contra o status quo que antecederam este junho de 2013 nas cidades brasileiras. Hoje, no dia 28 de junho, é preciso, por mais de uma razão, ressaltar a importância dos protestos em março deste ano contra a nomeação do deputado homofóbico Marcos Feliciano para a presidência da CDH.

No primeiro destes protestos em Salvador, no dia 10 de março, algumas centenas de pessoas fomos do Farol à estatua do Cristo na Barra. Diferente do ambiente carnavalesco que predomina nas paradas oficiais que acontecem nas cidades brasileiras, o sentido de insurgência contra a ameaça infame de retrocesso contida na nomeação do deputado fez daquele percurso um ato efetivamente político. E fazendo jus às suas origens, o ato teve seu encerramento com um vandalismo de grande poder: cobrir a estátua do Cristo com a bandeira do arco-íris pode ser entendido, para os conservadores dos vários matizes do cristianismo, como um ato de blasfêmia. Sim, fomos, naquele momento e ainda que simbolicamente, vândalos.

Em meio ao clamor por foco ou lideranças, as manifestações de junho pelo país começam mais uma vez a indicar a repetição de certa recorrência da ação política. Quem procurar a história dos atos políticos – e não do discurso, do blá blá blá! – nos últimos 44 anos tanto nos EUA como mundo afora, perceberá em diferentes intensidades talvez uma indistinta recusa em garantir a igualdade de direitos civis aos cidadãos LGBTTx que atinge espectros tradicionais da política: seja republicano ou democrata, seja da direita ou da esquerda. A luta pelos direitos civis levada adiante pela comunidade LGBTTx, depois de Stonewall e ali refundada, é queer (transgressora e vândala), o status quo político, independente da cor que ele tenha, vem sendo majoritariamente straight.

A homenagem no Brasil aos vândalos de 1969 é a manutenção atenta no junho de 2013 da luta contra todas as sandices fundamentalistas deploravelmente preconceituosas e retrógadas que sustentam o status quo político atualmente. Porque na hora do concentrar o foco, já estamos vendo por aí quem está ficando de fora. Para ser vândalo, seja queer.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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