Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Tem culpa quem na goleada, ou: um adendo à conversa sobre a Seleção

Ewald Hackler, um dos mestres que tive no teatro, certa vez citou uma frase que dizia algo assim: “se quer que as coisas não aconteçam direito, forme uma comissão para decidir”.

Claro que era uma piada. Mas com fundo de verdade.

Gostamos de generalizar, ou jogar para outras instâncias e noutras dimensões as culpas, erros, vexames. Se o posto de saúde administrado pela prefeitura de tal cidade está sem médico, sem equipamento, a culpa é de Dilma. Não importa o quanto o Governo Federal tenha investido, e o quanto pelo meio do caminho os gestores, empresários e empreiteiras, em âmbito municipal, tenham sido corruptos, negligentes ou incompetentes. A culpa é sempre do presidente.

Assim como o presidente tem que julgar e legislar, para o os ignorantes, ele também tem culpa, sofre ofensas, é atacado pela derrota da seleção. Óbvio que o Governo Federal, através de seu Ministério dos Esportes, deve repensar, melhorar, combater erros, equívocos, defeitos e ideias defasadas no futebol brasileiro. Claro que Dilma Rousseff deve ser cobrada pelas promessas feitas ao Bom Senso FC, e deve ser veementemente criticada se não correr atrás, e deve ser clara quanto aos empecilhos, se ela assumir essa briga, para entendermos a complexidade de um país cheio de donos, onde alguns movimentos tornam-se impossíveis: e é assim da cultura à saúde. Mas isso é papo pra outra hora.

Parece, muitas vezes, que não se entende que existe uma confederação, a CBF, cheia de escândalos, defasada, que recebe críticas severas e violentas de jornalistas esportivos, que escolhe um técnico. Esse técnico escolhe 22 jogadores que irão formar seu selecionado. Este mesmo técnico escolhe titulares – junto com sua comissão técnica – e como esses titulares irão jogar, em que posição, e pouco importa as características de cada um, suas funções originais que os projetaram, assim como pouco importa se existem melhores jogadores que ficaram de fora. Esse será o selecionado que será chamado de Seleção Brasileira.

Assim como ouço muitos dizerem, na Bahia, que “o Braskem” jamais vai lhe dar um prêmio de teatro, ou que não gosta de seu trabalho, etc., ouço dizerem que o Brasil deu vexame na copa, que o Governo Federal não-sei-o-quê, que a nação pepepê-caixa-de-fósforo.

Sinto informar que o Prêmio Braskem é constituído, a cada ano, de 5 pessoas distintas, selecionadas por suas competências, com ideias diferentes, e que apenas se representam ali dentro. “A” Braskem não faz nada além de patrocinar “o” Braskem que, ademais, é gerido pela Caderno Dois Produções (sem querer compará-la, incautamente, à CBF).

Do mesmo modo é a Seleção Brasileira. Existe uma comissão, escolhida pelos cartolas que comandam a CBF, e não há interferência alguma do Governo Federal, nem dos X-Men, nem de Nostradamus.

O que isso significa? Que comissões de prêmio e quem escolhe essas comissões são, individualmente e pessoalmente, responsáveis pelos acertos e erros, pelas glórias e vexames. Assim também é com a Confederação Brasileira de Futebol.

A CBF escolheu Luis Felipe Scolari, que escolheu 22 jogadores e o esquema tático (ou a ausência dele) e os titulares. Portanto, ninguém além deles vai e nem deve “chuuupar” nada por conta dessa derrota vexatória.

Foi vergonha e vexame para a instituição CBF, para o técnico e para os jogadores; em menor escala, mas também para eles. Assim como premiações podem ser vergonhosas e vexatórias por conta das e para as comissões que as compõem.

Claro que isso pode manchar, por exemplo, a imagem da empresa que patrocina a premiação, fazendo mal para o teatro, endeusando merdas e castigando talentos. Do mesmo modo, as decisões da CBF e de um técnico podem perturbar a imagem de um país, entristecer e revoltar uma nação. Por isso que sempre acho um erro, que eu mesmo cometo exageradamente, chamar o selecionado de um técnico pelo nome do país.

O Brasil não entrou em campo. O Brasil não passou vergonha. Se formos espremer um pouco mais, o Brasil nem entrou no estádio. Ele estava aqui, na rua, descendo a ladeira num pagodão depois do jogo.

Sem culpa, vexame ou vergonha: e dando de goleada.

 

ps: Esse artigo foi um adendo ao anterior: A goleada da Alemanha e Holanda, ou: pra Frente Brasil!

  Blake Wood Womens Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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