Cultura e Cidade

  • Cláudio Marques

    De pais e avós baianos, Cláudio Marques é fundador e coordenador do Panorama Internacional Coisa de Cinema desde 2003. Diretor, roteirista, produtor e montador de 6 curtas metragens, todos co-dirigidos com Marília Hughes. "Depois da Chuva", primeiro longa da dupla, foi exibido em mais de 30 festivais pelo mundo. "A Cidade do Futuro" é o segundo longa de Marília e Cláudio e será lançado comercialmente em 2017.

Tragédia anunciada

 

Cena "desconfortável" do longa de Julianan Antunes

“Baronesa”, de Juliana Antunes, é um filme difícil. Ele nos leva para o meio da guerra, na periferia. Uma guerra que, via de regra, toma-se notícia de forma fria, através de veículos que não se interessam minimamente pelas pessoas que são assassinadas diariamente nos subúrbios do país. Um verdadeiro genocídio da população jovem e negra brasileira.

Em “Baronesa” vamos conhecer muito bem alguns desse personagens. Vamos nos interessar por eles, pois entramos em suas casas, nos afeiçoamos facilmente a eles. Andreia, Leidiane, Negão, além de diversas crianças, vizinhos… todos jovens, muito jovens, e que deveriam ter toda a vida pela frente. Eles são bonitos, potentes, cheios de vida, graça e inteligência… deveriam ter tudo do bom e do melhor… animados, que precisam de pouco para se divertir… que fazem de piscina a caixa d’água…, mas que se encontram em uma terrível situação de vulnerabilidade social. Um triste quadro de abandono e falta de perspectiva.

Nós não ficamos a par do trato entre equipe e personagens. Não sabemos se anteriormente a diretora conhecia Andréia, a protagonista. Fato é que há uma abertura imensa para o filme. Os personagens falam de coisas que não são tratadas normalmente em frente a uma câmera. E, por outro lado, é nítido que todos os personagens entendem bem que um filme está sendo realizado e o dia-a-dia deles é a matéria prima. O grau de confiança é elevadíssimo e “Baronesa” consegue captar momentos fortes, de muita intimidade e intensidade.

No início do filme há algo a ser celebrado. Há um bom astral que permeia a todos, naquele bairro pobre de Belo Horizonte. Estamos em Vila Mariquinhas, onde pipocou guerra entre rivais do tráfico. A preocupação não impede o riso solto. Há muito afeto entre todos. Os vizinhos se visitam, se ajudam. Coisas terríveis são ditas, mas de forma descontraída, quase como se tudo você uma grande brincadeira. Uma grande mentira.

Daniel, menino de apenas sete anos, conta ludicamente que quer vender o cabelo para tirar o pai da prisão. Ele fala sorrindo… Andréia faz contas, ela quer se mudar. Ela quer morar em Baronesa, um bairro mais sossegado. Ela está animada, acha possível construir seu barraco num terreno invadido. Andréia trabalha como manicure. Leidiane lembra que ela ainda vai ter que “fazer muita unha” para conseguir comprar os materiais de construção. Andréia sonha!

Negão é o jovem próximo à Andréia e Leidiane. Ele é gaiato, perspicaz, tem um humor interessante. Mas, Negão está disposto a se envolver na guerra do bairro. Andréia tenta dissuadir o amigo. Mas, ele acha que tem o dever! Ele testa o colete à prova de balas, numa sequência de muito nervosismo. Sempre entre a brincadeira e a gravidade!

As situações de violência se sucedem, se aproximam dos personagens e da equipe do filme. O final do longa é triste e melancólico, para dizer o mínimo.

“Baronesa” levanta debates éticos evidentes. Há uma exposição excessiva, incômoda, de pessoas em posição delicada, de extrema vulnerabilidade. Volto a lembrar que o filme não nos apresenta o acordo realizado com as pessoas da comunidade. Não sabemos como a diretora consegue obter tal grau de confiança com aquelas pessoas.

Ao mesmo tempo, os personagens provocam empatia imediata. São cinematográficos! Falam bem, são articulados e, com certeza, mereciam uma vida melhor.

Difícil ficar indiferente à “Baronesa”. Um primeiro longa marcante de Juliana Antunes!

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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