Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Trânsito e cidade

Às vésperas da eleição, uma enorme vontade de falar sobre a pobreza política que nos assola me veio à mente. Mas o nível de ridículo a que se chegou a política, e a forma vulgar como o assunto passou a ser tratado desmereceram, pra mim, um espaço de discussão.

Enquanto pensava nisso, andava pela cidade de carro com uma reflexão que há tempos venho amadurecendo sobre um comparativo entre a relação do homem com o trânsito e com a cidade. Mais animado ainda fiquei quando soube de um novo livro do antropólogo Roberto DaMatta tratando sobre o tema.

Gentileza gera gentileza. E esse é um dos fundamentos do trânsito que são mais desrespeitados. O soteropolitano dificilmente desacelera o carro pra alguém sair da garagem ou pra que alguém passe em sua frente por necessidade de entrar numa rua ou retorno. Parece que fere a masculinidade (tanto do homem quanto da mulher, no sentido figurado do termo) de quem dirige. Ser ultrapassado, dar passagem é humilhante. Você pode não estar com pressa, pode até andar a 60km/h, mas ao ver a possibilidade de ser ultrapassado, a chance de dar passagem, a situação de alguém saindo da garagem, acelera-se a 80km/h sem piedade.

O descompromisso com o outro também é evidenciado ao não se ligar o pisca alerta para se mudar de pista, entrar nalguma rua ou estacionar. Esse aviso serve a quem vem atrás, ao pedestre que aguarda algum sinal pra saber se pode atravessar, e é comumente ignorado porque o soteropolitano é esperto, ágil e o outro que se dane; faço minha manobra a hora que eu quiser e quem bate no fundo perde a razão e quem morre atropelado é o outro.

Não existe coisa mais irritante, também, do que ver o motorista que, numa pista de 70km/h, anda a 50km/h na pista da esquerda; que é a de velocidade. As pessoas além de descumprirem uma regra, ainda se colocam na postura de “olha como esse irresponsável quer correr, enquanto eu estou correto em dirigir lentamente”. Ora, a pista da esquerda é para ultrapassagem e para a mais alta velocidade permitida pela placa do local. E para completar, diversos são os motoristas que só resolvem passar pra pista correta – a que ele vai precisar estar para entrar numa rua, pra fazer um desvio, pra estacionar – na última hora. Com isso, o trânsito é amarrado. São seguidos os engarrafamentos aparentemente inexplicáveis oriundos de maus e/ou irresponsáveis condutores.

Abrir a janela do carro pra jogar papel fora nem se fala. Parece que o sujeito se sente em seu mundo, dentro do veículo, e o exterior é um limbo abjeto e que não lhe pertence. Se começarmos a somar a isso tudo o excesso de buzinadas inúteis, o não parar na faixa de pedestre, os gestos obscenos dos machões que fazem irresponsabilidades no trânsito e se sentem mais machões ainda quando ofendem além de ser irresponsáveis, a lista começa a aumentar. O desrespeito aos semáforos, às faixas de pedestre e a esperteza daqueles que decoram onde ficam os radares pra poder andar noutros trechos acima da velocidade permitida são coisas tão graves e óbvias que nem preciso discorrer sobre elas. E aí pensamos no ouvir som alto em locais públicos, estacionar em qualquer canto obstruindo calçadas e desrespeitando placas, e soma-se a isso tudo a irresponsabilidade do pedestre.

Em Salvador, as pessoas atravessam em qualquer lugar, correm risco de morte, mas estampam o sorriso esculhambado e faceiro que tanto encanta turistas e folcloristas irresponsáveis, sorriso que devia continuar estampado no rosto mesmo depois de um atropelo. Mas, a partir do momento de um “tá lá um corpo estendido no chão”, o motorista passa a ser o criminoso e o pedestre a vítima. Começam fábulas sobre as irregularidades de velocidade, etc, sobre o motorista; nos casos onde este sequer tem culpa. As culpas dos condutores são discorridas acima.

Outro problema sério decorrente disso é que a cidade se enche de semáforos, que tornam o trânsito lento, devido aos protestos de seguidos atropelos em locais com passarelas. O soteropolitano quer ser esperto, tem preguiça de atravessar uma passarela numa pista de alta velocidade, e ainda protesta se ocorre atropelo. Aí, queimam pneu, põem faixa, gritam, e vencem numa subversão da lógica que é simples; seguir a ordem pra não sofrer com a infração. Mas a irregularidade baiana vence.

Vivemos numa cidade cada dia mais feia. Numa cidade onde as opções de voto são ridículas, políticos desinformados, ignorantes, com discursos prontos sobre segurança, saúde e educação, mas sem propostas efetivas e inteligentes; pra não falar da cultura. Entrevistei três prefeituráveis, há dois anos, e foi uma lástima. Eles não sabiam absolutamente nada sobre cultura e arte em Salvador, nem tampouco sabiam o que fazer com o potencial incrível que essa cidade tem através de seus músicos, atores, artistas plásticos, cineastas, etc.

Mas temos sempre que lembrar que políticos não brotam do chão (se brotassem, seria do esgoto). Eles são cidadãos que têm a mesma atitude que nós todos, soteropolitanos, temos no trânsito. E que refletem, exatamente, a falta de cidadania, de gentileza, de preocupação com o espaço público, com a boa convivência, com o respeito, o desenvolvimento, a civilidade.

Nosso comportamento no trânsito reflete metonimicamente nossa pobreza cidadã. E assim vamos atropelando a possibilidade de uma civilização menos injusta, menos individualista, menos irresponsável. E assim vamos sendo atropelados por políticos que não dão sinal, atravessam fora da faixa, não respeitam o outro, andam lentos na pista de velocidade, e Salvador vai sendo a selva, a Selvador que tanto falo.

 

(artigo originalmente publicado em setembro de 2010 no blog do Teatro NU)

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Eduardo Alcântara
Gostei de seu texto. Tenho algo parecido em meu blog, citando inclusive esses erros comuns de motoristas que não sabem as regras de trânsito. São 4 regras básicas transgredidas e 6 sugestões de boas práticas no trânsito. http://eduardoalcantara.com.br/repense-o-transito-e-seus-atos/
 A tragédia de Ondina e a onda que nos chacina | O olhar que tenta ler o mundo…
[...] barbárie a que a cidade chegou. Há três anos escrevi sobre isso, e resolvi reproduzir o artigo Trânsito e cidade novamente, aqui, para não precisar repetir certos [...]
 A tragédia de Ondina e a onda que nos chacina | Teatro NU
[...] reflexo da barbárie a que a cidade chegou. Há três anos escrevi sobre isso, e resolvi reproduzir o artigo novamente, aqui, para não precisar repetir certos [...]

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