Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Trinta e muitos anos do Axé; breves e soltas reflexões

Dizem que o Axé fez 30 anos. Dizem que o pai do Axé é Luiz Caldas. Entrevistam Hagamenon Brito, que cunhou a expressão Axé Music, para falar sobre a expressão, o mercado, os sucessos. Leio muito sobre tudo isso, mas não vejo pessoas capazes debruçarem-se sobre a força e história da nossa música de carnaval que, por trás – e muito além desse Axé de 30 anos – remexeu com Salvador, a Bahia e o Brasil.

Se eu tivesse tempo, eu pesquisaria mais para pensar sobre esse movimento que Ildásio Tavares, em artigo do livro Nossos colonizadores africanos, coloca em maiúsculo. Ildásio considera o grande e mais significativo movimento musical depois da Tropicália, vendo no Axé um herdeiro de Gil e Caetano, e mais atrás, ainda, em Caymmi. Inclusive, um dos raros textos de fácil acesso que se debrucem sobre nossa música de carnaval sob uma perspectiva positiva (e há algo de Nelson Motta, Caetano, Risério, que eu lembre, por alto…).

Enquanto outras capitais vão buscar lá atrás a identidade de seu carnaval, e se autopromovem assim e são respeitadas por isso, a Bahia e o Axé apanham e a porrada começa em casa. Entretanto, é daqui que surgem as novas composições, misturas de ritmos e estilos, e Psirico faz arrocha com pagode, Rumpilezz vai pra Barra desfilar e o Baiana System levanta seu público ao som da levada do mesmo pagode que, tendo suas raízes no samba de roda e na chula, são ritmos presentes na música baiana desde ou antes de Caymmi.

Não sei se o Axé fez 30 anos. Não sei se tem pai, ou só um pai (viva a suruba musical!). Não sei nem se é um Movimento, se é uma continuidade que se profissionaliza e dialoga com o mercado em ascensões e decadências e, para os metidos a cocô, no sucesso, é uma merda, e no fracasso é merecido.

Ildásio vê uma sequência que explode em Dodô e Osmar, segue na Tropicália e sua relação com o carnaval baiano, e cita os Novos Baianos, de leve, para uma linhagem que vai dar no Axé. Acho que ele não dá a devida atenção à dissolução dos Novos Baianos como algo que considero essencial para o Axé.

Moraes Moreira volta-se para a música de carnaval, começa a gravar ijexás, compõe aqueles frevos e galopes já baianos, elétricos, com outros caminhos melódicos e harmônicos. Por outro lado, Pepeu Gomes lança seus primeiros discos, trazendo os riffs de guitarra e a influência do pop rock para os ritmos brasileiros.

Moraes sai dos Novos Baianos em 1975, mesmo ano em que o Ilê Aiyê sai, pela primeira vez, ao som do Mundo negro de Paulinho Camafeu. Gil grava. Ele e Caetano (Muitos carnavais é de 1977) compõem músicas de carnaval (vocês sabem o que é tiete, né?), Gil descobre também o reggae, sai do sertão para a África e a Jamaica, e a música brasileira, mais uma vez, não seria a mesma. Em 1977, ele grava Patuscada de Gandhi, Mundo negro (no disco chamada Ilê Aiyê), Sandra (que Netinho gravaria depois, e que Gil cantou em recente ensaio de Luiz Caldas, confirmando sua condição “axé”), e em 1979 (ano de fundação do Olodum) ele traz o reggae de Não chore mais e Toda menina baiana que, calcada na levada do afoxé, é uma das músicas mais executadas em trios (cantada também no ensaio de Luiz, esse ano). Isso pra ficar no exemplo Gil; ainda tem Caetano, Moraes…

Em 1981, só como exemplo, voltando a Pepeu, este lança um LP que ganharia disco de ouro graças a Eu também quero beijar, parceria com Moraes Moreira e Fausto Nilo. Aquele riff inconfundível da música – e seu ijexá disfarçado – vão ecoar nos riffs de Selva branca, de Brown e Vevé, gravada pelo Chiclete com Banana, e nos riffs de Axé pra lua, de Luiz Caldas. Isso, um ano depois do disco Transe total, onde A cor do som gravava Palco, de Gil, e Zanzibar, de Armandinho e Fausto Nilo, que dividiu com o guitarrista também a parceria de Vida boa, outro clássico do nosso carnaval. Pois é, ainda tem A cor do som nesse bolo todo, aí.

Se for pra ficar no carnaval, mesmo, antes de 1985 temos as gravações do Chiclete com Banana. Colar do oriente (1982), ou Mistério das estrelas e Canto de Aledé, do disco Energia, de 1984, são tão Axé quanto seria Luiz Caldas que, com seu Fricote, estilizou o samba de roda (olha o pré-pagode!) e com uma dancinha conquistou o país. Assim foi A roda de Sarajane, também a partir do mesmo ritmo, o ijexá que Gerônimo e Lula Queiroz emprestaram antes para a Cor do som com Dentro da minha cabeça, e a explosão do samba-reggae criado por Neguinho do Samba, e o Eu sou negão de Gerônimo e o Faraó do Olodum abrindo caminho para Daniela Mercury que estourou pelo país inteiro com A cor da cidade.

Querer contar essa história é mexer em vespeiro e sei que deixei de citar muita gente – a importância de um Roberto Santana e um Wesley Rangel na profissionalização do mercado fonográfico, Orlando Tapajós e a reinvenção do trio, etc. – e nem pretendo isso, aqui. Não tenho conhecimento e nem embasamento e há gente bem mais capaz e que viveu ou pesquisou o assunto mais que umas tantas consultas à minha memória, a conversas com protagonistas da história e algumas passagens pelo google.

Apenas gostaria que se olhasse com mais atenção e carinho aos caminhos da música na Bahia, ou os caminhos a partir daqui. O artigo de Ildásio exalta o Axé por ser um movimento realmente popular e pra pular, que vende, anima, dá vontade de ouvir, de cantar, letras diretas e sem blablablas poéticos herméticos. Ele, inclusive, não deixa de criticar o mau gosto e o barulho, além dos subprodutos de boa parte da degenerescência do Axé, mas nada disso tira o brilho de uma música, de um estilo, ou até, mais que um estilo, um estímulo que seja no carnaval baiano. Se quiserem, pode nunca ter havido Axé. Tudo isso é um caminho que segue, como o trio, pelas ruas da cidade, chamando gente, misturando, com reinvenções, citações, inovações, provocações e muito suingue, com base nas raízes africanas, notadamente, e a misturada que fizemos de forró com reggae, de samba com frevo, ou seja lá o que for.

Se não olharmos o passado, não podemos fazer o futuro. Há um elo, por vezes difuso, por vezes claro, que une o ijexá de Gil com o frevo de Moraes com o riff de Pepeu com o solo de Armandinho com o reggae de Gil com o ijexá de Moraes com o mundo negro de Camafeu com o samba-reggae de Neguinho com a música eletrônica de Daniela com o pagode do Baiana com o sou negão de Gerônimo com o forró de Luiz Caldas com o galope do Chiclete com a lambada de Gerônimo com o arrocha do Psirico com o fricote de Luiz com o galope do Asa com o reggae de Lazzo com o samba-reggae de Margareth com o lundo de Xisto Bahia.

E aí embola tudo, e isto é bom que dói. É tudo música. Como em todos os tempos, tem a ruim e a boa, somente. O Axé, ou simplesmente a música de carnaval da Bahia merecia uma atenção mais dedicada, com estudo e pesquisa, e mais respeito e sensibilidade. Já era hora de se perceber, ao invés de uma execração boba, historicamente, a importância da música de carnaval produzida aqui. Não me interessa falar do ruim, mas do que é bom, pode ser bom ou melhorar. Temos um potencial imenso para continuar criando uma música pulsante, viva, alegre, ritmada e popular.

Pra isso, há a briga com o mercado, com o mau gosto da mídia, de empresários e compositores/cantores que criam lixo atrás de lixo em busca do sucesso fácil, mas também há a briga com o preconceito, com a cegueira, com a negação de uma história que legitima o carnaval de Salvador e, não à toa, continua exportando seus talentos ano após ano, entre merdas e pérolas, entre sucessos e modas, mas não deixando de ser a música mais legítima de um povo que veio gozando ou sofrendo, degredado, escravizado ou empossado, para esta terra em que, se plantando, tudo dá.

Vamos plantar e cultivar, todo dia de manhã, flores que a gente reggae, sambe, requebre, repique, ferva, galope, suingue. Aos que torcem o nariz para esse caldeirão musical, desejo apenas axé, que eu ainda tenho muito trio pra seguir nesse carnaval.

  Ricky Seals-Jones Womens Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Gil Vicente Tavares
Pedrinho, vi pelo email que você era você, e fiquei muito feliz com seu comentário, aqui. É sempre bom ouvir protagonistas da história recente de nossa música. Grande abraço!
 Pedro Rocha
Gil, parabéns pelo texto. Surpreendente, porque não parte de alguém ligado a esse mercado musical; e também porque não cai nessa invenção louca da midia de 30 anos de axé. Quando Luiz fez sucesso, era ele o Rei do Fricote.. a expressão axé music, cunhada por Hagamenon para uso pejorativo, só foi usada de outra forma no disco da Banda Beijo de 91 ou 92, ainda com Netinho. De forma debochada, a ideia foi inspirada na torcida do Palmeiras que, na ápoca, adotou o porco - apelido dado aos torcedores alvi verdes pelos adversários - como mascote. O disco - vinil - fez sucesso no sul, e a galera de lá passou a chamar nossa música assim - eles não conheciam a versão escrota... vejo que independente do lado ruim, ou do axé ruim, existe uma produção cultural que, com o tempo, se avaliará melhor. Nada mais escroto do que hollywood, mas como ignorar suas grandes obras, autores e artistas? Como vc disse no início do texto, o fogo amigo é forte. Só um dado para ilustrar o texto do companheiro Roger, acima: Luiz Caldas, assim como Brown, surgiram do "predatorio esquema bloc/trio (Beijo 1983 e 1984 e Camaleão de 1985 à 1988.). Outra figura importante nessa história foi Waltinho Queiroz, grande compositor e dono do Bloco Jacu - outro esquema de bloco financiando a música. Já no Rio Maravilha que finaciava era o Jogo do Bicho; hoje é bom nem falar quem banca. Abs.
 Cícero Gabriel
Perfeito! Um olhar afetivo e inteligente, enfim, no meio de tanta porradaria radical. "Brasileiro perdoa tudo, exceto o sucesso alheio"

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