Cultura e Cidade

  • Cláudio Marques

    De pais e avós baianos, Cláudio Marques é fundador e coordenador do Panorama Internacional Coisa de Cinema desde 2003. Diretor, roteirista, produtor e montador de 6 curtas metragens, todos co-dirigidos com Marília Hughes. "Depois da Chuva", primeiro longa da dupla, foi exibido em mais de 30 festivais pelo mundo. "A Cidade do Futuro" é o segundo longa de Marília e Cláudio e será lançado comercialmente em 2017.

Um Ano Tião!


“Ele está bem?”. Eu tinha certeza de que no momento exato do nascimento do meu filho eu faria essa pergunta à Marilena, nossa médica. Passei quase toda a gravidez pensando nisso.

Às 15 horas e 32 minutos do dia primeiro de julho de 2015, Tião nasceu. Após trabalho de parto tranqüilo, embora longo (quase 40 horas), eu o recebi nos meus braços. Apesar do cansaço de todos nós, sobretudo de Marília, eu o segurei com muita tranqüilidade. Eu olhei fixamente para aquele rostinho e tive a certeza de que ele estava bem. Não fiz a pergunta que ensaiara durante tanto tempo. Ele chorava, nascer é um susto. Nós chorávamos, mas em silêncio para poder escutar Tião.

Eu me levantei (estava de joelhos) e o levei calmamente para Marília. “Cau! É a minha cara”. Até hoje essa é a nossa maior desavença quanto a Tião. Eu acho que ele é um “cauzinho” com olhos dela. Ela duvida. E o povo se divide.

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Três dias depois, estávamos os três em casa. Tião ainda estava “acordando”. Mamava um pouquinho, mas logo desistia. Começamos a ficar angustiados com a falta de apetite e ação dele. Eram cinco da manhã. Resolvemos, nós dois, entrar em ação. Eu embalava Tião enquanto Marília esterilizava colher e copinho. Depois, ela ordenhou. Com a ajuda do copinho, Tião se alimentou razoavelmente, pela primeira vez.  Foram umas três horas de trabalho para… entre 5 a 10 ml de leite, se me lembro bem. Comemoramos!

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Tião completava um mês de nascido e eu passei a incentivar Marília a sair, retornar à vida dela aos poucos, e a deixar Tião comigo. Ela não queria. Ainda tinha “um bicho acuado” no olhar. O primeiro passo foi ela retornar à natação. O nosso medo era que Tião chorasse de fome com Marília longe. Mas, respiramos e Marília ordenhou. Colher e copinho em mãos. Pela primeira vez na vida, Marília estava atenta ao celular.

Eu coloquei Tião no canguru e saí com ele. Eu acho que foi o segundo passeio dele. Mas, foi a primeira vez que ficamos absolutamente a sós, ele e eu. Por mais de uma hora. Tião não chorou, logo dormiu.

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Falávamos, beijávamos, cantávamos (aliás, canto a mesma musica para Tião desde o primeiro dia), mas ele reagia pouco. Um dia, brincando com um chocalho que a amiga Leila mandou como presente, ele não desgrudou. Seguia o instrumento, ligado no barulinho. Acho que foi a primeira vez que ele se mostrou realmente desperto.

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Em outubro, em meio ao Panorama (festival de cinema que nós organizamos), Tião apareceu febril: quase quarenta graus no meio da madrugada. Ministramos banhos. Nada. Remédio. Baixou, mas febre voltou. Não teve jeito: emergência. O ambiente dos hospitais não é bom. Não é saudável. Hospital é lugar de doença, não de saúde. Brigamos com um dos médicos, grosseiro. Uma médica nos atendeu como se deve. Ao final, descobrimos o que Tião tinha. Ele foi medicado e rapidamente tudo ficou bem.

Mas, ali, mesmo sem falar muito sobre, Marília e eu descobrimos algo novo, uma zona de medo que eu não desconfiava existir em mim.

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Não abri um livro nesses meses todos. Eu deixei de ver filmes até mesmo no cinema que eu construí. Estou apreendendo o mundo de outra maneira. Da maneira Tião. Não tenho mais tempo ocioso algum. E sei que isso não vai durar muito. É o tempo necessário para que o meu filho ganhe autonomia. Não há experiência alguma mais estimulante que essa.

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No “Tempo Tião” que se estabeleceu em nossas vidas, aos cinco meses de vida dele, nós o levamos à praia. Queríamos uma praia distante dos centros urbanos. Escolhemos Itacaré. Todo mundo nos falava de que as ondas poderiam provocar medo nele. Sugeriram cavarmos um buraco para que ele se sentisse seguro. Aliás, recebemos, desde o nascimento, uma quantidade absurda de recomendações inúteis. Brasileiro é técnico de futebol e dá todo tipo de pitaco sobre o filho dos outros. São estilos de vida distintos. Sobretudo, isso.

Voltando à praia, chegou o “Grande Dia”. Digo “Grande Dia” porque o mar é algo importante demais para Marília e para mim. Estávamos cheios de expectativas e cuidados. E Tião, que é de câncer, elemento água, parecia um peixinho. Nos nossos braços, ele mergulhou, bebeu água e chorou horrores quando o tiramos do mar. Não queria sair. Voltamos nos dias seguintes e o ritual se repetiu de forma ainda mais intensa: Tião é bicho do mar!

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Perto de completar seis meses de vida, o momento da introdução alimentar. Marília deixaria de ser “marmita” exclusiva. A amamentação em livre demanda já a deixava exausta. Marília estava pesando 49 quilos, nunca foi tão magra. Inegável o prazer, mas como tudo nesse “Tempo Tião”, há um desgaste, há um trabalho que jamais deve ser negligenciado. É intenso, sobretudo para a mãe, que amamenta.

Primeiro, vieram mamão, banana e laranja-lima. Depois, Brócolis e inhame. A descoberta dos sabores. A meleira prazerosa pelo corpo.

Tião passou a comer de forma regular. Ele é “boa-boca”, come de tudo o que é bom.

A introdução alimentar gerou um efeito colateral que não poderíamos imaginar, novato que somos. Vale dizer, antes, que desde que nasceu, Tião sempre dormiu bem para os padrões normais. Dormia quatro, cinco, seis horas seguidas. Acordava, mamava e voltava a dormir. Após a introdução alimentar, ele começou a acordar mais vezes durante a noite. Algumas delas, gritando, assustado. Tião entrava na fase “angústia da separação”. O momento em que o bebê entende que é um ser único, distinto da mãe. Foram alguns meses assim, entre noites melhores e piores, mas sempre com sustos na madrugada. Optamos, desde sempre, pelo acolhimento.

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De todos os cantos, chegavam as notícias que os amiguinhos de Tião já engatinhavam. Nosso filho estava “durinho”, já sentava, mas nada de engatinhar. Um dia, nos reunimos com pais e mães de outros bebês. Tião olhava enlouquecido para aquelas criaturinhas em constante movimento. Chegamos em casa, eu mostrei a ele como deveria fazer: mão direita e perna esquerda. Depois, mão esquerda e perna direita. Ele me olhou, ficou na posição e saiu em disparada. “Começou!”, eu gritei para Marília. E começou, mesmo. Nos dias seguintes, Tião começou a subir e a descer a escada aqui de casa. Não tinha limites.

Logo, ele descobriu as tomadas. E descobriu o prazer de ouvir “não”. Ele ria e voltava correndo (engatinhando) para a areia da gata: “Não, Tião!!” “As plantinhas, meu filho…”

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Tião fala muito na língua dele. Um dia, soltou um audível “mama”. Poucos dias depois, eu caminhava e ele, ao lado de Marília, me chamou: “papa”. Me voltei para ele. Sorrimos, os três.

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Tião é um bebê tranqüilo e companheiro. Viajou sempre bem com a gente. Ele não reclamou do vento no sul da França, nem do frio infernal em Curitiba. Nessa última viagem, ele conheceu Heitor, filho de Gilmar, Igor e Milla. São os nossos atores em “A Cidade do Futuro”. Heitor é muito mais novo que Tião: 26 dias a menos e já andava!!! Tião, de novo, olhava atentamente para ele… se ele pode…

Já na volta, Tião começou a andar. Alegria desse novo momento aliada às saudades do bebê que engatinhava. Tudo no “Tempo Tião” é assim: intenso e breve.

Durante os nossos passeios matinais, começamos a tirar ele do canguru. Ele não acreditou que iria andar na praça, aqui no Santo Antonio. Ele olhou para Marília e para mim, olhou para frente e foi embora. Se recusou a nos dar a mão para caminhar.

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Um ano, hoje.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Diego
Bonito mesmo! Como vai o Tião? Boa vida aos três!
 Cláudio Marques
Obrigado :)
 Salete Maso
Que lindo texto. Parabéns :)

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