Cultura e Cidade

  • Cláudio Marques

    De pais e avós baianos, Cláudio Marques é fundador e coordenador do Panorama Internacional Coisa de Cinema desde 2003. Diretor, roteirista, produtor e montador de 6 curtas metragens, todos co-dirigidos com Marília Hughes. "Depois da Chuva", primeiro longa da dupla, foi exibido em mais de 30 festivais pelo mundo. "A Cidade do Futuro" é o segundo longa de Marília e Cláudio e será lançado comercialmente em 2017.

Antes, tinha mais cor. Agora, só laranja.

Em algum carnaval antes dos anos 90. Foto de Adenor Gondim.

Eu passei os meses de janeiro e fevereiro em viagens com o meu primeiro longa-metragem, “Depois da Chuva”, co-dirigido por Marília Hughes. De fora do país, eu acompanhei algumas das discussões sobre o carnaval de Salvador. Mas, eu estava distante. Eu vivenciei ao máximo a vida nos países por onde circulei.

De volta, eu já tinha uma idéia do que encontraria. Mas, melhor experimentar para poder falar alguma coisa.

Eu cheguei no meio da folia, numa sexta-feira. Somente no sábado fui às ruas, à tarde, sem um endereço certeiro, sem querer ver exatamente aquele cantor ou banda que renderiam idéias já pré-estabelecidas quanto à festa. Eu queria ver um pouco do todo, entender como as coisas estão sendo pensadas, ao menos no circuito central, que vai do Pelourinho ao Campo Grande.

Pois, eu andei por mais de oito horas pelas ruas de Salvador num clima de total tranqüilidade. Não presenciei roubos, brigas, uma confusão sequer, nada. Nem pickpockets, muito menos as já tradicionais bomba de gás lacrimogênio de Jaques Wagner, que explodiram na quinta-feira em dois diferentes locais.

Aliás, tudo me pareceu tranqüilo demais da conta por esses lados, em princípio.

Eu tomei um susto quando entendi que acabaram com o circuito na Carlos Gomes, que se transformou em estacionamento para os trios. A população local está brava e protesta. Tem algumas faixas estendidas pelos prédios: “Acabaram com o carnaval do centro”. Alguns caixões e velas, além de outros símbolos do descontentamento.

A mudança serviu para suavizar o carnaval dos moradores do próspero Corredor da Vitória, que não precisam mais lidar com esses hiper trambolhos que são os trios elétricos da Bahia. A Prefeitura suavizou de um lado, mas apertou de outro. Do lado mais frágil, claro.

Eu creio que encurtaram o circuito por razões financeiras. Economizar aqui, ganhar ali. Mas, tinha que matar essa parte do circuito do centro? Consultaram os moradores e comerciantes da Carlos Gomes? Claro que não. Assim, floresce a nossa democracia.

Eu perambulei durante boa parte da tarde pela Avenida Sete e não vi absolutamente nenhuma atração, nada. Horas sem quase nenhum movimento. Eu vi muitos ambulantes e barracas às moscas.

E não há uma única decoração de carnaval proposta pela Prefeitura, esse ano. Apenas a proporcionada pela Schin, patrocinadora da folia. Estava tudo alaranjado, até o isopor do ambulante. Plástico por todo o lado com a marca da cerveja.

Essa padronização começou quando Lídice da Mata era prefeita e alcançou a sua expressão máxima de mediocridade na gestão atual. Vale lembrar que, antes, as barracas eram coloridas, pintadas à mão (foto acima, de Adenor Gondim). Cada qual com a sua personalidade. Hoje, é tudo ridiculamente igual. É feio demais!

Que dinheiro paga essa perda? Será que não percebem? Como o carnaval se embrutece dessa forma…. A cidade perde e muito!

Resgatar o carnaval significa recuperar as antigas barracas, com suas pinturas e decorações. Significa dar liberdade às pessoas para andar nas ruas, sem cordas ou camarotes. Isso já se falou, todo mundo sabe, mas a Prefeitura de Salvador caminha cada vez mais no sentido contrário e a limitação de vendas de produtos no circuito do carnaval dá o tom desse equívoco (eu pretendo voltar a falar da questão específica da cerveja em outro texto).

Sabe-se que o carnaval de rua do Rio de Janeiro renasceu há cerca de dez anos atrás, justamente sob o signo da espontaneidade. Agora, o mesmo acontece em São Paulo.

Mas, voltando às minhas perambulações desse sábado de carnaval, as coisas começaram a esquentar no final do dia. Vieram os primeiros trios com cordas e daí é aquele sufoco de sempre. Só cabe quem está dentro dos blocos e isso é muito agressivo, de uma violência absurda. Eles tomam conta de todos os espaços públicos e expulsa quem não pertence àquela agremiação. A imagem dos cordeiros é triste. Arriscam-se em um trabalho árduo e ganham uma miséria. Quando as cordas serão abolidas? Trata-se de um passo decisivo para a nossa sociedade. Enquanto isso não ocorrer, saberemos que trilhamos o pior dos caminhos.

Eu fugi dos trios, mas, vale ressaltar que não vi nenhum princípio de briga. Eu assisti aos feiosos de “As Muquiranas” em guerras de espuma e água, feito crianças.

Depois, eu retornei ao Pelourinho, que estava com poucas atividades durante o dia, mas começou a esquentar à noite. Algumas pequenas bandas, fanfarras e uma boa quantidade de foliões atrás, subindo e descendo as ladeiras. Estava bonito!

Depois, no palco principal, Márcia Castro fez um show muito bom, seguro, sem precisar saltar, gritar ou fazer caretas. A cantora se garantiu com um bom repertório repleto de hits, músicas conhecidas de outros carnavais. Ela me parecia cantar com amor e tranqüilidade. Um show cativante. O clima, como sempre, de muita tranqüilidade.

Depois, eu ainda me aventurei por uma das praças do Pelourinho, onde ocorria a apresentação da banda “Bailinho de Quinta”, que transformou o espaço num verdadeiro “inferninho”. Eu já estava cansado, mas posso dizer que o clima estava quente por lá. Ali, eu vi carnaval, o bicho pegando!

Hoje, domingo, tem mais. Dale Hawerchuk Womens Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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