Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

Vazante, um grandioso exercício de mímese

Michael Haneke é indiscutivelmente um dos maiores diretores de cinema da atualidade. Bastaria ele ter feito Cache, uma obra-prima sem concessões para nada que não seja perfeito. Mas ele também é o diretor de A Professora de Piano, Jogos Violentos, Amor e A Fita Branca. Este último repete o ritmo e estrutura de Cache, marcados pela construção de um suspense sufocante e lento, para apresentar uma reflexão sobre a formação da geração que compôs a massa que deu suporte ao regime nazista.

Longe das grandes cidades, longe de figuras históricas, o filme irá mostrar o cotidiano de uma sociedade, gente tão simples quanto comum, preparando crianças para uma violência cruel desmesurada cerca de vinte anos mais tarde, um tempo que não faz mais parte da narrativa do filme. O que interessa a Haneke é tratar do momento em que mentes são preparadas para isso, sem nenhum alarde, sem nenhum acontecimento que se torne notícia ou capítulo na história, o momento em que a onda atinge a rede e a faz vibrar sem que necessariamente seja possível visualizar no momento os seus efeitos duradouros sobre a rede.

Vazante, de Daniela Thomas, é uma homenagem eloquente ao trabalho de Haneke em forma de exercício de recriação formal de A Fita Branca. Se fosse arquitetura, poderíamos dizer que Daniela estaria reconhecendo em Haneke a importância de um Palladio, autor de casas no Renascimento que viriam a ser referência absoluta em uma boa parte do mundo ocidental por quase quatro séculos.

Daniela Thomas fez uma aposta arriscada: seria possível apresentar a formação do Brasil como país, às vésperas de sua independência, a partir da mesma perspectiva de tragédia anunciada através de uma ambiência sufocante semelhante à que Haneke criou para jogar uma luz sobre a formação do nacional-socialismo na Alemanha? Podemos discutir as bases da nossa formação como sociedade a partir de um microcosmo marcado pelas ações corriqueiras e cotidianas mais elementares?

As relações de incomunicabilidade, crueldade, divisão, violência que deixam pouco espaço ao que tênue há de beleza e ternura do Brasil que se forma durante o século XIX e que conformará a sociedade urbana do século XX são lentamente apresentadas no ambiente rural em processo de redefinição paisagística e econômica na transição da exploração das minas para a agricultura do café. O Brasil no limiar de sua modernização econômica e política definido a partir dos modos de relação dos personagens na fazenda entre brancos e pretos, adultos e crianças, patrões, alforriados e escravos, proprietários e endividados, mas, acima de tudo, entre homens e mulheres.

Daniela Thomas fez um filme tecnicamente primoroso, com um elenco excelente e uma fotografia que é capaz de reproduzir a iconografia do Brasil rural do século XIX em um grande exercício da estética estabelecida por Haneke em A Fita Branca, para apresentar com vigor uma tensão sobre o papel da mulher, e das relações entre mulher e homem herdadas do Brasil arcaico pelo país que viria a surgir a partir de sua independência. Um filme tão multifacetado que seria uma redução caracterizá-lo de feminista, ainda que seja esta a sua questão mais estruturante. A angústia é muito mais ampla: o lugar entre a casa grande e a senzala nunca estabeleceu uma praça cívica.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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