Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Whindersson na Concha e público na loca

pintura de Peter Brueghel

Um espetáculo profissional de teatro, em Salvador, fica, em média, 24 dias em cartaz, entre a primeira, segunda e, a duras penas, terceira temporada.

Nossas casas de espetáculo mais voltadas ao teatro de fato, na média, comportam 150 pessoas. Pensando em sua relevância, meia casa, na média, é um número que pode ser considerado razoável para que o espetáculo não seja daqueles maratonistas amadores de edital; que ao fim da corrida proposta encerram sua carreira sem impacto algum.

24×75=1.800. Mil e oitocentas pessoas são o número médio de público que um espetáculo profissional tem, num cálculo bem grosseiro. Os ingressos, em Salvador, têm custado entre 30 e 40 reais a inteira, e as pessoas nos olham com aquele espanto de “tá caro”.

Temos a mania de bater em artista, ao invés de questionar e ajudar a modificar o sistema educacional e cultural do país, ao invés de repensar nossas atitudes, ao invés de olhar o próprio rabo. Os músicos criticam Ivete ou Safadão, e nós, do teatro, prontamente batemos em comédias rasteiras e stand-ups. Bobagem.

Tentei assistir ao vídeo mais estourado que achei de Whindersson Nunes. Não consegui esboçar sequer um riso de canto de boca ao longo dos seis minutos; e isso é problema meu. Há consumidores para todo tipo de entretenimento e ninguém é obrigado a gostar do que maiorias ou minorias gostam.

O fato é que Whindersson esgotou os ingressos para sua apresentação na Concha Acústica do TCA. Cinco mil lugares. São quase R$300.000. Que haja custos pesados, cota de convites, facilmente sua equipe sairá de Salvador com uns R$200.000 no bolso.

Falei lá em cima: “Há consumidores para todo tipo de entretenimento”, e me questiono se há consumidores pra todo tipo de arte. Eu acredito que sim. Em potencial. Os ingresso de Whindersson custam 100 reais, a inteira. E as pessoas pagam, as pessoas vão. Cinco mil pessoas. Isso equivale a uma temporada de 33 apresentações, 11 semanas de sexta a domingo, quase três meses de casa lotada, em média, de um espetáculo teatral em Salvador. Temporada de sucesso e retorno financeiro para a equipe.

Será que para cada cinco mil pagantes de Whindersson não há cinco mil que poderiam gastar 60% menos para assistir a teatro?

É sempre um assunto espinhoso discutir a questão do público. Salvador é uma cidade especial até para se utilizar a palavra qualidade, que é excluída do vocabulário de muitos artistas, relativizada qual anátema como se a cidade que tem uma faculdade de teatro, pólo criador reconhecido nacionalmente, não pudesse falar em teatro de qualidade.

A indústria do edital viciou artistas a fazerem projetos que não pensam no público, em seguir uma carreira nos palcos findo o recurso público, e muitos fazem teatro pro próprio umbigo sustentados pelo erário sem gerar, desse erário, uma obra de arte que possa sobreviver e ter potência para ter continuidade.

Por outro lado, mesmo espetáculos exitosos sofrem com a falta de divulgação, com a invisibilidade, com falta de recursos para manter a peça mesmo com público pagante, visto que temos que pagar a pauta, a divulgação, muitas vezes o bilhete, o bilheteiro, os técnicos de som, de luz, o contra-regra, repor material de cena, deixar alimento pra equipe, pagar transportes de pessoal e material, enfim, diversos custos que, saindo da bilheteria, fazem com que muitos façam teatro sem ganhar, apenas pra pagar aos outros e estar em cartaz pelo simples fato de estar.

Nesse aspecto, o poder público não tem ações, muito menos a iniciativa privada, que fortaleçam projetos bem-sucedidos a se manterem em cartaz. Os próprios teatros públicos deveriam ter recursos para se autogerir e se potencializar, convidando espetáculos e estruturando um funcionamento onde todos pudessem se beneficiar.

Outra boa hipótese seria um edital específico, ou programas de manutenção que prezassem mais pela viabilidade econômica e profissional do projeto que pelas iniciativas comunitárias, inclusivas e assistenciais. Sim, parece que temos medo de encarar a questão da economia criativa e transformar o setor do teatro num gerador de renda e emprego real, com potencial para ser uma micro-indústria cultural que possa ter certa independência com sua base fortalecida.

Ah, e tem o público, ah, o público! Artistas têm culpa, gestores públicos têm culpa, iniciativa privada virando as costas pro setor tem culpa, mas e o público?

Salvador gosta de viver de evento. Teatros e cinemas enchem quando de festivais, e qualquer grande evento põe centenas, milhares na rua. Parece um bando de patachocas. As fêmeas do guaiamum, de tanto em tanto tempo, saem em determinada maré, lua e data e se espalham pelas praias de alguns lugares perto de mangue. A população de Salvador é um pouco assim, espera a lua, a maré e tais datas para sair em bando; e o resto do tempo vai pra loca, se enterrar na areia.

O Teatro NU, mesmo, lotou o TCA com nosso espetáculo Caymmi: do rádio para o mundo. Ficamos entusiasmados em entrar em cartaz com a peça. Mas será que fora do evento as pessoas iriam? Pensando em termos de valores, o projeto Domingo no TCA, excelente projeto do Governo Estadual, não lota porque a maioria das pessoas não têm mais que R$1,00 pra gastar com arte. Lota porque as pessoas só querem gastar isso com a mesma. Porque gastam R$100 quando realmente se interessam por algo. O problema não é o valor da arte, mas o valor que se dá à arte; e nessa perspectiva, não é só a falta de “educação” e “cultura” que é culpada, o público também não valoriza a arte que tem.

Há, eu acredito, público em potencial para alimentar as bilheterias de teatro em Salvador. A começar pelos artistas de áreas distintas que não se frequentam, e a terminar em áreas que flertam com a arte e a literatura em seus estudos, como a psicologia, a arquitetura e o direito, por exemplo, só para começo de conversa.

Mas as patachocas estão a acumular gordura e procriar em suas locas, esperando sinais da lua e da maré. E enquanto esperam, artistas desistem, desanimam, fracassam e se frustram com seus espetáculos.

Whindersson Nunes, não. Esse vai voltar pra casa cheio da grana, daqui de Salvador. Sendo mais um evento de um dia de exceção. Ele continuará de pé, com sua comédia, enquanto nossa tragédia cotidiana senta e espera.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Raquel Gonzaga
Uma das explicações para o comportamento "patachoca" do publico pagante de Salvador vem do seu provincianismo que culmina em: valorizar o que vem de fora ao invés da prata da casa. Sou, verdadeiramente, crítica a este comportamento do Soteropolitano (assim como para outros comportamentos "antissociais" em relação à cidade, no seu "des-exercício" como cidadão & a falta de investimento social e educacional que ajudaria no conhecimento e desenvolvimento do "desejo" pelas mais diversas formas de entretenimento por parte da população... estas são questões complementares mas para outra conversa). Vivi fora da cidade por um tempo e ao retornar me propus a redescobrir o que a cidade oferece, até mesmo como exercício pessoal, e frequento de tudo. Ok, há o que desenvolver e fazer. Mas, sim, há o que fazer em Salvador. E para todos os gostos. Pena nem todos enxergarem e fazerem bom uso dela.
 João F
~O problema não é o valor da arte, mas o valor que se dá à arte~ Essa frase encerra e amplia muito tudo que foi colocado no texto. Explica o sucesso do Youtuber, a relação do público de Salvador com seus artistas e, confere, sem dúvida, mais um cadinho de provocação para todos nós, enquanto artistas e consumidores (eu disse consumidores?) de arte.

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